Fecha os olhos e vive

Quando a pressão da existência me impede de ser e o ar que respiro me sufoca, ou seja, quando estou lixado com a vida, fecho os olhos e procuro coisas boas, só coisas boas. É um exercício que faço desde sempre para me libertar e continuar a viver como quero – simples, sem Deus, mas com muita alma.

Em criança, fechava os olhos e procurava cinco imagens do futuro em cinco segundos. Por exemplo: eu aos quinze anos a passear na Avenida do Mar com uma namorada linda de morrer; eu aos trinta a cruzar sozinho um país exótico como se estivesse dentro de um filme a preto e branco; eu aos quarenta a fumar um charuto num restaurante feito de madeira tosca e colorida à beira-mar; eu aos cinquenta deitado numa cama de rede ao lado de uma mulher extraordinária que descobri para lá de Marraquexe, no fim do mundo; eu aos sessenta com barba comprida e pele tostada, cheio de viagens e aventuras para contar a toda a gente, outra vez em casa, no Laranjal, no exato sítio onde me encontrava ao abrir os olhos.

Hoje, pelo contrário, quando estou lixado com a vida, fecho os olhos e procuro cinco lembranças em cinco segundos entre todas as que o futuro não desfez. Por exemplo: a força do vento a empurrar a primeira joeira que alteei e a tensão do fio nas mãos; a forma bruxuleante como o sol atravessava a ameixieira inglesa atrás da casa ao pé do palheiro e enfeitiçava o lugar com uma profunda abundância de luz e sombra; a minha mãe sentada no terreiro a bordar, o seu olhar, o seu sorriso, a sua voz e a sua melancolia a correr sem fim no meu coração; o lento e delicado movimento das bolas de sabão ao entardecer nos dias grandes; o sabor único dos gamesses Piratas.

Até uma certa altura, quando eu estava lixado com a vida, tanto via imagens do passado como do futuro, às vezes misturadas de tal maneira que não distinguia umas das outras, mas de repente deixei de acreditar no futuro. Não perdi a esperança – eu nunca perdi a esperança – mas deixei de acreditar no futuro. Agora, fecho os olhos e só vejo coisas do passado. Ou seja, envelheci. Simplesmente, envelheci.

O futuro já não tem força para me salvar no presente. O futuro está sempre a dar voltas, é um lugar instável, em permanente transformação, tem tanto de desafio como de vazio, tanto de beleza como de vileza, a sua sombra não corresponde à sua forma, é disforme, informe, é uma mera fantasia e, como qualquer fantasia, nunca satisfaz a sede que provoca e conduz amiúde o desejo até à beira do abismo, abica-o por ali abaixo.

É assim: o futuro inquieta-me, mesmo quando o vejo com bons olhos, mesmo quando a vida me corre bem por dentro e por fora, mesmo quando sinto e sei que vou triunfar amanhã. De certa forma, tenho medo dele, mais não seja por ser lá que vou morrer.

Já o passado é um lugar estático. O bem e o mal da minha vida estão ali parados e aguardam ansiosos pela minha visita. Em cinco segundos posso escolher cinco coisas terríveis ou cinco coisas belas. Depende do que quero fazer aqui e agora, se o propósito é me martirizar, vitimizar, crucificar ou, pelo contrário, se pretendo me acalentar, fortificar, libertar.

De uma maneira ou de outra, o meu objetivo é sempre seguir em frente sem merdas na cabeça, da forma mais simples possível, eu diria quase nu, sem Deus, mas com muita alma, rumo ao futuro, claro, rumo ao futuro. É que não há outro sítio para onde ir, não há mesmo.

E o resto, meus amigos, é conversa fiada, também designada por filosofia, ou poesia, ou belas-letras, ou outras coisas do género que, por vezes, até estimulam o pensar e o pensamento. Já agora convém lembrar que é para isso que serve a cabeça. É o que dizem…