Não gostam destes princípios? Eu arranjo outros

A política deve ser exercida com seriedade e com verticalidade. Mas hoje a seriedade parece um adereço melancólico e a verticalidade uma característica ausente. Nunca me canso de dizer isto: é caricata a velocidade com que alguns mudam de camisola partidária vendendo-se e/ou comprando ou renegando princípios ou causas. Veja-se o exemplo de sete das nove candidaturas à presidência da Câmara do Funchal. O candidato do Livre, Tiago Camacho, já foi do BE. Américo Dias, candidato do PPM, era do CDS. Duarte Gouveia, ex-deputado, ex-dirigente e ex-militante socialista, é agora do Iniciativa Liberal. Miguel Castro, candidato do Chega, já foi do PSD. Bruno Berenguer, cabeça-de-lista do JPP, era do PAN. Raquel Coelho, do PTP, militou no PND. O candidato da Confiança, Miguel Gouveia, era do PSD e agora corre pelo PS. O que sobra? Sobra Pedro Calado, do PSD e sempre do PSD. E Edgar Silva, um comunista fiel. Mas podia ir mais longe e apresentar mais um exemplo como o da equipa da Confiança que nos primeiros onze candidatos a vereador tem tantos dissidentes do PSD que se percebe o nível de ressentimento e a falta de carácter que por ali grassa, para irmos logo ao assunto. E estes comportamentos multiplicam-se por todos os concelhos, uma evidência que alguns qualificam de vitalidade democrática, mas que eu prefiro identificar como oportunismo político e falta de hombridade. E como a integridade e a palavra na política são parte importante, não se pode, ou não se deve, confiar em pessoas que são como cata-ventos que à mínima oportunidade trocam de princípios, de valores e de causas, como outrora, com piada, fazia o Groucho, o mais cómico dos irmãos Marx. Mas o Groucho era um comediante que não fazia mal a ninguém. Já esta gente quer mandar nas nossas cidades. E isso faz toda a diferença.


A agência de viagens de São Martinho

Que muitos autarcas adoram dar nas vistas, não é novidade. Novidade é a imaginação que alguns usam para conseguir fazer coisas que antes não se faziam ou para atropelar outros que já as fazem. Ou então o modo como dão novas fronteiras a conceitos que se julgariam, no mínimo, rígidos e realistas. Repare-se na Junta de Freguesia de São Martinho, a maior da Madeira (860 mil euros de orçamento em 2021), e na interpretação que o seu presidente faz do conceito de "passeio social". Normalmente, as pessoas associam "passeio social" a uma actividade destinada a proporcionar, a algumas camadas da população mais necessitada, momentos de lazer e de convívio. Um "passeio social" pode ser, neste contexto, uma volta à ilha em autocarro, uma viagem ao Porto Santo ou, vá lá, uma viagem ao Continente ou aos Açores. Estava tudo certo e era tudo aceitável, até ao momento em que o presidente da Junta mais rica da Madeira e recandidato pela Confiança a São Martinho, decidiu inovar e elevar os ditos "passeios sociais" para outra galáxia. Assim, certamente farto das voltas à ilha com almoço no Porto Moniz, decidiu inventar "passeios sociais" em cruzeiros no Mediterrâneo, em viagens por Itália e em excursões à Anatólia, na Turquia. Quantas pessoas "necessitadas" foram a estes "passeios sociais" é coisa que ninguém sabe porque o segredo parece ser a alma deste negócio. Mas é evidente que de "social" isto não tem nada, portanto não nos julguem parvos enquanto brincam com o nosso dinheiro. Aliás, antes da pandemia (e é só por isso que este regabofe não aconteceu em 2020 e em 2021), a Junta de São Martinho gastava por ano quase 200 mil euros em "passeios sociais", o que facilmente se explica vendo o cardápio apresentado. Entretanto, 8 anos e quase 6 milhões de euros em orçamentos depois, as despesas com ordenados, combustíveis, comunicações e de representação da Junta dispararam e não há nada de significativo e de infraestrutural para mostrar. Mas ir a Roma valeu a pena. E Veneza estava lindíssima.