O Registo Oncológico da Madeira (RO-RAM), do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), publicou, pela primeira vez, um trabalho científico numa revista internacional com revisão por pares. O artigo foi publicado na revista Cancer Epidemiology, da Elsevier, classificada como Q1 nas áreas da Oncologia e da Epidemiologia.
O estudo apresenta uma abordagem metodológica pioneira na Europa - até agora apenas desenvolvida nos Estados Unidos - e analisa o perfil etiológico do cancro do fígado na Região Autónoma da Madeira.
“O cancro do fígado é um dos tumores mais letais em Portugal, tendo sido registados 1.740 novos casos e 1.611 óbitos em 2022. Ao contrário de muitos outros tipos de cancro, esta doença surge, habitualmente, em tecidos previamente comprometidos, estando maioritariamente associada a quatro causas principais: hepatite B, hepatite C, fígado gordo não alcoólico e consumo excessivo de álcool”, destaca o SESARAM, em comunicado.
A investigação analisou 240 casos de carcinoma hepatocelular - o tipo mais comum de cancro do fígado, diagnosticados em residentes da Região Autónoma da Madeira entre 2010 e 2023, com o objetivo de identificar as causas predominantes da doença no arquipélago. Os resultados revelam que a incidência é cerca de oito vezes superior nos homens, comparativamente às mulheres, sendo o consumo excessivo de álcool identificado como a principal causa da doença. Este padrão distingue-se do observado noutras regiões do mundo.
“Embora a origem da doença influencie o risco de desenvolvimento do cancro do fígado, o estudo sublinha que o prognóstico depende sobretudo do estadio em que o tumor é diagnosticado. A investigação reforça, assim, a necessidade de uma vigilância ativa das doenças hepáticas, da monitorização dos fatores de risco metabólicos e da implementação de estratégias de saúde pública orientadas para a redução do consumo excessivo de álcool, particularmente junto da população masculina e dos grupos etários mais envelhecidos”, esclarece o Serviço Regional de Saúde.
O Governo Regional, através do SESARAM, diz que valoriza e reconhece a importância deste tipo de estudos como uma ferramenta crítica para a definição de políticas públicas na Região. “Ao transformar dados estatísticos em inteligência operacional, o trabalho permite que o planeamento estratégico em saúde se foque nas especificidades da população madeirense, fundamentando a alocação prioritária de recursos para a prevenção e orientando estratégias de monitorização e diagnóstico precoce que respondem de forma direta e eficiente às necessidades específicas da Região”, justifica.
O trabalho contou com a participação da equipa do Registo Oncológico da Madeira, nomeadamente o bioquímico Pedro Berenguer, e os médicos Cláudia Fraga, Sara Müller, Patrícia Serrão e Carolina Camacho, bem como com a colaboração da médica Carolina Sales, do Serviço de Oncologia Médica, da médica Laurentina Silva, do Serviço de Cirurgia Geral, do médico Nuno Ladeira, do Serviço de Gastrenterologia, e do Professor Catedrático da Universidade de Miller School of Medicine, em Miami, Estados Unidos, Paulo Pinheiro.