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Artigo de Opinião

O ESPÍRITO DOS TEMPOS

22/03/2026 04:00

Entre Setembro de 1814 e Junho de 1815, as potências que tinham derrotado Napoleão – a Áustria, a Prússia, a Rússia e a Inglaterra – às quais se juntaria mais tarde a França restaurada de Luís XVIII, reuniram-se no que se convencionou designar por Congresso de Viena. O Congresso de Viena foi, para além de uma cimeira, um festim orgiástico e um banquete interminável que contou com milhares de pessoas, incluindo diplomatas, banqueiros, espiões, arrivistas, ladrões, intriguistas e, claro, prostitutas.

O objectivo do Congresso era refazer a Europa, depois do terramoto napoleónico. Para tal, as potências vencedoras propunham-se pôr fim às fantasias da soberania popular, restabelecer a legitimidade das velhas dinastias, impedir a hegemonia de uma única potência e eliminar as ideias de revolução. Klemens von Metternich, o chanceler austríaco, foi o dinamizador e o artífice do equilíbrio geoestratégico entre os poderes reinantes.

Iniciou-se assim um modelo que dava nova vida à Europa dos monarcas ao mesmo tempo que enterrava as veleidades da Europa das nações e do liberalismo despertado pela Revolução Francesa. O sistema diplomático de Metternich era, portanto, não só uma saída para parar as ideias nefastas, promover a paz e forjar alianças duradouras, como também uma resposta para impedir o reacender da guerra. No fundo, evitar o surgimento de um novo Napoleão e as consequências da “hidra revolucionária”.

Portanto, foi verdade que o Congresso procurou estabilizar as fronteiras e inaugurar uma diplomacia com virtudes multilaterais, cujo acordo foi formalizado ainda antes da derrota final de Napoleão em Waterloo. Mas também foi verdade que essa lógica favorecia apenas as grandes potências, reprimia os movimentos liberais e ignorava a maioria dos povos da Europa.

Quando Hegel, em 1806, viu Napoleão em Jena, viu o “Espírito do Mundo sair da cidade a cavalo [...] de mão levantada sobre o mundo e governando-o”. Era o símbolo da mudança inevitável a chegar. Nesse tempo, Napoleão era senhor da Europa, mas o seu apetite, tal como a guerra, parecia não ter fim: a Revolução Francesa prometera a libertação do Homem, mas para Napoleão tudo se resumia a poder e conquista. No intervalo, as sementes iam germinando por todo o lado.

É muito difícil parar uma ideia cujo tempo chegou. O problema de Viena foi, a esta distância, ter sido apenas um êxito aparente, porque as opiniões revolucionárias, essas, estavam já bem disseminadas. Metternich baseara-se numa ilusão estrutural: a crença de que a vontade dos povos podia ser silenciada. No limite, o confronto era inevitável e uma questão de datas. A época inaugurada pelo Congresso ficou na história como o Concerto da Europa, um equilíbrio que duraria, com altos e baixos, até ao eclodir da I Guerra Mundial, altura em que os Impérios finalmente acertaram contas novas e antigas.

Dois séculos depois, a História parece sussurrar-nos uma advertência inquietante. Tal como em Viena se procurou a ordem cimentando alianças sólidas e varrendo as ideias perigosas para longe, também hoje se vê surgir um princípio organizador do mundo, onde regimes autoritários se articulam, cooperam e “concertam” entre si. Não é uma reunião de monarcas, nem um congresso de deboche feito de sexo e intriga, mas um eixo de poder iliberal que se encavalita na rejeição da democracia, na erosão das instituições multilaterais e na instrumentalização como afirmação geopolítica.

Perante o cenário, a velhinha Europa está dividida, desorientada, limitando-se a reagir aos acontecimentos. Perdida no labirinto, a sua grande força de outrora – a diversidade – é hoje, aparentemente, a sua fraqueza, a razão da inércia, o motivo da impotência. Enquanto isso, presunções perigosas arrepiam caminho, insistindo na premissa cândida de que a geopolítica actual se move por ideais de paz, amor ou libertação, e não por lógicas de poder, conquista e hegemonia, como no passado. Tudo cheira a ingenuidade ou a irresponsabilidade. Os que acreditam ser possível parar o vento nos campos, vivem numa ilusão simplesmente absurda.

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