O Espelho da Solidão

Os truques publicitários não conhecem limites, pensei eu, por acaso, no preciso momento em que chegavam à esplanada dois velhos, um dos quais mal se arrastava, a cambar duma perna como se viesse doutro mundo.

À primeira vista pareciam estrangeiros, dum ser estrangeiro que em tudo se assemelha ao ser local, ou talvez fossem emigrantes, pensei eu, daqueles que regressam à terra ao cabo de muitos anos e, por isso, parecem estrangeiros. Mas, de facto, os velhos não eram emigrantes nem estrangeiros. Eram apenas dois velhos locais, embora dum ser local diferente, talvez transcendente, ou seja, pessoas cujo espírito excedeu a dimensão do lugar onde vivem e nunca cristalizou. 

Isto era eu a pensar…

Os velhos puxaram as cadeiras e estas fizeram muito ruído, porque eram cadeiras pesadas, de ferro, o que despertou logo a atenção do empregado, que foi ter com eles em passo acelerado e chegou a tempo de ajudar o mais trôpego a sentar-se.

Os velhos pediram café com leite em chávenas grandes e durante o tempo em que ali permanecem – duas horas e catorze minutos – falaram essencialmente de três assuntos. A saber: Lídia, a mulher que ambos amaram na longínqua juventude e que morreu demasiado nova, deixando ambos viúvos; o homicídio duma prostituta ocorrido algures na ilha há trinta anos; e as fantasias do mundo atual.

Eu tinha chegado à esplanada oito minutos antes deles e ali permaneci ainda mais onze minutos após a sua partida.

Enquanto os velhos conversavam, eu lia um livro intitulado “O Espelho da Solidão” e, de quando em quando, olhava para o mar, ali mesmo tão infinito a seguir à escarpa, onde viviam vários gatos abandonados, uns gatos que eram muito queridos e bem tratados por pessoas que tinham pena deles e lhes traziam comida. A certa altura, o pasmo pelos gatos da escarpa tornara-se de tal modo contagiante, ao ponto de as autoridades os equipararem aos patos e aos cisnes e aos peixes das lagoas municipais e a seguir o pasmo tomou conta também dos turistas, tanto que até raptaram alguns, porque os achavam fascinantes e exóticos, estes gatos europeus de pelo curto, gatos que no início, quando os primeiros foram abandonados na escarpa, eram agressivos e fugiam de toda a gente, mas que ao cabo de duas ou três gerações se tornaram amistosos, gordos e parcimoniosos.

Sempre que eu tirava os olhos do livro, esbarrava num ou noutro gato com o rabo empinado, num ou noutro gato coçando o pescoço com uma das patas traseiras, num ou noutro gato a dormir aristocraticamente na relva, e também calhava de ouvir partes da conversa dos velhos, que falavam sem preconceitos nem papas na língua acerca do mundo atual e duma mulher chamada Lídia e do assassinato duma prostituta há mais de trinta anos.

Eu ouvia a conversa dos velhos e lia o livro e olhava para o mar e via os gatos e, às tantas, comecei a desenvolver uma ideia que, no mínimo, posso considerar estranha e, no máximo, perigosa. Por isso, nunca a revelei a ninguém e nem sequer tomei nota escrita dela, para não me comprometer. Foi só uma ideia. Nada mais.

E tudo isto aconteceu no dia em que a Academia Sueca anunciou a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2012 ao escritor chinês Mo Yan, que na verdade se chama Guan Moye, sendo Mo Yan um pseudónimo que quer dizer Não Fales. A Academia manifestou-se fascinada com o realismo alucinatório de Mo Yan e desembolsou 1,2 milhões de dólares para premiar tais alucinações. Ao que parece, Mo Yan é exímio em fundir contos populares, História e contemporaneidade. Fá-lo dum modo que encanta o mundo inteiro, embora só houvesse na altura um livro traduzido em Portugal, intitulado “Peito Grande, Ancas Largas” (Editora Babel), que o próprio Mo Yan considera ser o melhor, embora não se saiba se Guan Moye pensa o mesmo.

Eu, porém, estava a ler “O Espelho da Solidão”.