MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

20/06/2026 08:00

Não sou tecnicamente capaz de discorrer sobre a psicologia de massas, mas há algo na sociedade portuguesa que me intriga. Avizinhando-se um qualquer campeonato de futebol que a selecção nacional dispute e lá vamos nós extravasar aquele patriotismo e orgulho nacional, que só a bola parece fazer suscitar. Aparentemente epidérmico e interesseiro, faz regozijar quando se ganha e achincalhar se se perde, numa euforia que cedo murcha se o resultado final não aparece, para dar lugar ao menosprezo e à maledicência do costume. As praças, e o país, incendeiam-se com ecrãs gigantes, cachecóis, bandeiras e tudo se pinta a verde e vermelho. Até os longínquos homens de Estado descem dos pedestais e enrolam o cachecolinho ao pescoço porque o momento é de ouro para granjear simpatias junto da onda de exaltação nacional e as fotos ficam sempre esplêndidas, mesmo que se não aprecie a modalidade. A publicidade entra-nos afanosamente pelos ecrãs de televisão adentro a lembrar que patriotismo que se preze só é genuíno ao sabor de uma qualquer marca ou ao gorgolejar da bejeca de uma qualquer cervejeira que quer simbolizar o espírito nacional. Sempre com a selecção, e o país inteiro, de olho no negócio. Há-de discutir-se igualmente até à exaustão o valor e a oportunidade do Ronaldo em campo e todo um conjunto de tácticas e estratégias em que a malta é exímia treinadora. Os portugueses têm esta qualidade invejável, a de dominar de cátedra todo e qualquer assunto que faça as manchetes do dia. Tudo isto provoca um frenesim de alegria, entusiasmo e felicidade que se a governação aproveitasse o ensejo para qualquer aleivosia discreta e de ocasião o pessoal nem se ralava. Aliás, o que seria isso em comparação com a plenitude do futebol? Com o sonho colectivo que se reduz e contenta em ser campeão mundial da bola? Por cá nem seria tão relevante habituados que estamos a ser os melhores do mundo e arredores em tudo o que mexe. A paixão pelo futebol, e pelo clubismo em geral, é irracional como o é a paixão pela arte ou a paixão sentimental e daí não vem mal ao mundo. O que é curioso é que este mesmo ímpeto aguerrido que faz embandeirar fervorosamente uma paixão desportiva parece esmorecer ou desaparecer quando estão em causa outros interesses nacionais, o futuro colectivo e o desenvolvimento do país, e até a defesa de interesses profissionais e cívicos, onde a malta vai remoendo, mas se abstém e aceita passivamente.

Pelo futebol, toma-se parte destemidamente, forma-se opinião livremente, discute-se à exaustão tudo e mais alguma coisa, sente-se orgulho pelos bólides e as vidas milionárias dos jogadores, que o conquistaram a pontapés numa bola, enquanto se desconfia e esconjura de gatuno qualquer outro homem público que se atreva a exibir tal estatuto, ainda que lhe sobre fortuna de família. Pelo futebol insulta-se, agride-se fisicamente, até se mata, num empolgamento e urgência como se não houvesse amanhã e daquilo dependesse a nossa vida e o futuro da nação. E tudo o resto se torna minudente. Parece que com a bola, uma cervejola, um dentinho, uma festa popular em que se ria e se bazofie, se debitem larachas inócuas e se regresse a casa de alma cheia e realizada, não há mobilidade, inflação, habitação ou qualquer outro desígnio que realmente importe.

Passada a exaltação do momento, vencedora ou derrotada, há-de retornar-se ao torpor, ao desporto nacional de lamúrias, da crítica entre dentes, do maldizer atemorizado entre portas, da abstenção cívica e eleitoral, numa intolerável e apática denegação da cidadania e da participação social e política, até ao próximo campeonato ou ao próximo festim ou arraial de fim de semana.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Arranca esta quinta-feira, 11 de junho, mais um Mundial de Futebol. Até onde pode chegar Portugal?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

Neste episódio, a professora Susana Freitas e os alunos Rodrigo Ferreira e Madalena Magalhães, da Escola Secundária Jaime Moniz, partilham a experiência...

Mais Lidas

Últimas