Logo após a eleição do Presidente António José Seguro, foram muitos os que lhe gabaram o jeito, a persistência e a paciência.
Foram mais os que o passaram a admirar por ter ficado uma década fora do grande palco.
E ainda muitos mais os que se tentaram colar ao novo Presidente com a ideia de que Seguro fora um exemplo de recato político e sentido de Estado. Que apesar de ser afastado injustamente por António Costa, soube seguir o seu caminho e aceitar a vontade da maioria dos militantes do PS, fazer uma longa travessia no deserto e criar o seu próprio oásis de onde renasceu com vigor.
Isto foi o que se ouviu dizer durante estes meses de Seguro Presidente e corresponde, no essencial, à verdade conhecida.
Agora, quando Seguro passou pelo Funchal, voltaram essas narrativas, mas com uma diferença significativa: alguns dos que aplaudem o gesto do Presidente da República, fazem justamente o oposto.
Em vez de respeitarem o afastamento, voluntário ou forçado, ocupam os dias a zurzir a vida alheia. Entretêm-se a coser a casaca de outros em espaços mais ou menos anónimos onde se deixam trair por ideias que repetem em segredo partilhado às dezenas e lá vem um dia em que se espalham quando se enchem de coragem para dizer em público o que diziam em segredo.
Entra aí o coro das carpideiras de sempre. As encartadas e as ocasionais. Com um traço comum: em certos momentos, umas e outras falharam quando podiam ter invertido o ciclo que diziam combater, seja no poder político na oposição, no desporto ou na economia, nas artes ou nas empresas, na saúde ou na educação. A soberba não tem exclusivos, nem donos. Anda por aí à mão de quem agarrar. E a ela se segura quem quer.
Não tem grande mal a falha, desde que involuntária e sem grande prejuízo. Só falha quem faz, quem tem de decidir, quem está no exercício do mando.
Mas faz mal quando praticam a política do caçador de coelhos que vive tão obcecado com a possibilidade de disparar que aponta ao topo das árvores quando sente uma ligeira brisa. Os coelhos, como todos sabem, não andam no ar.
Antes que entrem as carpideiras, de novo, todo este conjunto metafórico é também ele atirado ao ar e será de quem o agarrar. Não tem um destinatário identificado e muito menos único.
Quem sentir que lhe serve o capacete, pois que o vista que o verão vem fraquinho. Quem não usa a soberba, quem trabalha honestamente, quem atua com rigor, quem interpreta com seriedade, quem reclama com justiça, só tem de continuar a fazer o que faz.
A crítica justa, verdadeira e séria, deixa espaço para ser acolhida e analisada. A gritaria não deixa nada.