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Artigo de Opinião

20/06/2026 08:00

Os leitores têm uma vantagem sobre as personagens: sabem que o livro acabará. Podem não saber quando, podem não saber como, mas sabem que existe uma última página. As personagens, pelo contrário, vivem cada capítulo como se outro viesse inevitavelmente a seguir. Talvez por isso nos pareçamos tanto com elas. Passamos a vida a acreditar que haverá sempre mais tempo. Mais um almoço de domingo. Mais uma visita. Mais uma conversa que pode esperar porque estamos ocupados. Mais um telefonema que faremos amanhã. Vivemos como se as pessoas que amamos fossem capítulos permanentes da nossa história. Que o livro da vida nunca terminará.

Penso muitas vezes em Úrsula, de “Cem Anos de Solidão” (Gabriel García Marquéz). Ao longo de gerações, ela permanece. Os filhos envelhecem, os netos crescem, o mundo transforma-se e ela continua ali, como uma árvore antiga no centro da casa. Há pessoas assim em todas as famílias. Pessoas cuja presença se torna tão constante que deixamos de imaginar a sua ausência. Esse é, provavelmente, o nosso maior engano: o de confundirmos permanência com eternidade.

Também Santiago, em “O Velho e o Mar” (Ernest Hemingway), continua a lançar-se ao oceano quando muitos esperariam que desistisse. A idade habita-lhe o corpo, mas não lhe ocupa a vontade. Há homens e mulheres assim. Pessoas que trabalham, sonham, criam projetos e enfrentam os dias com uma vitalidade que nos faz esquecer que o tempo continua a passar por elas. E, porque esquecemos, somos apanhados de surpresa. Não pela existência da fragilidade humana, que essa conhecemo-la bem, mas pela ilusão de que ela pertence sempre aos outros. Aos outros dos outros.

Nos romances, raramente nos apercebemos de que estamos a ler os últimos capítulos de uma personagem. Só depois compreendemos que aquela conversa foi a última. Que aquele encontro não se repetirá. Que uma despedida aparentemente banal carregava um significado que desconhecíamos ou que o olhar trocado e tão bem descrito era, efetivamente, o derradeiro. Na vida acontece o mesmo. Não sabemos quando estamos a viver um último capítulo. Não sabemos quais os telefonemas que deixarão de existir, quais os almoços que se transformarão em memória ou quais as histórias contadas à mesa que um dia gostaríamos de voltar a ouvir apenas mais uma vez. Ainda bem que é assim.

Não sei se conseguiria existir se conhecesse antecipadamente o peso de cada instante, mas há uma lição discreta que os livros e a vida partilham: os afetos não foram feitos para esperar. Nem os abraços. Nem os agradecimentos. Nem as palavras que guardamos para um momento mais oportuno. Porque o tempo raramente nos avisa quando está a virar a página e porque, no fim de contas, a vida não se mede pelos capítulos que julgávamos ainda ter por ler, mas pela forma como habitámos aqueles que nos foram oferecidos.

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