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Ucrânia: Presidente polaco retira condecoração a Zelensky

Data de publicação
19 Junho 2026
21:37

O Presidente polaco anunciou hoje que vai retirar a mais alta condecoração do país, a Ordem da Águia Branca, ao homólogo ucraniano, em plena tensão levantada pela história partilhada entre os dois países.

Kiev reagiu de imediato à revogação da distinção polaca através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Andriy Sybiga, que condenou um “erro estratégico” e uma “decisão desprezível”.

A decisão de Karol Nawrocki, um historiador nacionalista independente, eleito chefe de Estado polaco em 2025, surgiu em resposta à designação, ordenada por Volodymyr Zelensky, de uma unidade militar com o nome do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), à qual Varsóvia atribui a morte de cerca de 100.000 polacos durante a Segunda Guerra Mundial.

“Para a esmagadora maioria da sociedade polaca, o Exército Insurgente Ucraniano continua a ser, antes de mais, uma formação responsável pelos crimes brutais cometidos contra cidadãos da República da Polónia durante a Segunda Guerra Mundial”, afirmou Nawrocki num discurso divulgado nas redes sociais, no qual expressou indignação e propôs retirar a distinção ao líder ucraniano.

Varsóvia tem sido um dos mais fortes apoiantes de Kiev, tanto a nível militar como social, tendo acolhido mais de um milhão de refugiados desde o início da invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, e, um ano mais tarde, a atribuição da condecoração a Zelensky foi vista como uma expressão de excecional solidariedade entre os dois países.

Mesmo antes da chegada à presidência, Nawrocki nunca escondeu as críticas à Ucrânia, opondo-se à adesão de Kiev à NATO e à UE. Depois disso, bloqueou legislação da maioria liberal, no poder, que estendia o apoio especial aos refugiados ucranianos.

O Presidente polaco nunca visitou Kiev, apesar dos vários convites da Ucrânia, mas, ao longo do percurso como historiador, tem sido também um fervoroso crítico da Rússia.

Enquanto diretor do Instituto de Memória Histórica, foi responsável pela eliminação de símbolos soviéticos na Polónia, numa política agressiva condenada por Moscovo.

O UPA era o braço armado de um movimento independentista ucraniano que lutou contra o Exército Vermelho, mas também entrou em confronto com a resistência polaca e matou civis polacos e judeus.

O UPA colaborou igualmente com os alemães nazis em alguns momentos, em alternativa à ocupação soviética da Ucrânia, voltando-se contra eles noutros.

Na Ucrânia, no entanto, o antigo movimento rebelde é homenageado como uma força que lutou pela independência do país, que desde 2022 voltou a experimentar uma guerra existencial.

A Ucrânia argumentou que a escolha do nome da unidade militar não pretende ofender a Polónia.

Mas Zelensky também provocou desconforto em Varsóvia ao presidir, no mês passado, ao enterro de Andriy Melnik, líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) durante a primeira metade do século XX, anteriormente sepultado no Luxemburgo.

Os restos mortais foram transferidos para o cemitério construído em Kiev para sepultar soldados ucranianos mortos em combate.

Melnik foi eleito líder da OUN em 1938 e, após a cisão na liderança durante a Segunda Guerra Mundial, continuou a dirigir um dos grupos dissidentes da organização, recordada na Ucrânia sobretudo pela luta contra o domínio soviético, enquanto a outra foi encabeçado por Stepan Bandera, cujo regresso à Ucrânia é igualmente reclamado por Zelensky, e o seu braço armado era o UPA.

Num dos períodos mais controversos do seu percurso, o líder nacionalista colaborou com a Alemanha nazi em certas fases da guerra, embora tenha acabado por ficar em prisão domiciliária por ordem dos próprios alemães, contrários à criação de um Estado ucraniano, acabando por ser enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen.

Os defensores do seu legado explicam a colaboração com o Terceiro Reich como uma necessidade puramente tática para alcançar as aspirações de independência da Ucrânia.

Os seus detratores contrapõem com um suposto alinhamento ideológico com o nacional-socialismo e responsabilizam-no por alguns dos massacres de judeus e polacos perpetrados por nacionalistas ucranianos durante a Segunda Guerra Mundial.

Kiev reconheceu os massacres de polacos cometidos pelo UPA e emitiu um pedido formal de desculpas a Varsóvia, mas rejeitou o termo “genocídio”, oficialmente adotado em 2016 pelo parlamento polaco, então dominado pelo partido nacionalista Lei e Justiça (PiS), agora na oposição e que apoia Nawrocki.

Em 2025, após anos de interrupção, os dois países retomaram as exumações das vítimas dos massacres da Volínia, que hoje pertence ao noroeste da Ucrânia.

Visivelmente constrangido, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, um pró-europeu defensor da Ucrânia, considerou inicialmente a decisão de Zelensky preocupante e depois apelou aos dois Presidentes para que “encontrassem uma forma melhor do que trocar golpes para apaziguar estas emoções”.

Ao mesmo tempo, instou o lado ucraniano a assumir “a responsabilidade por esta crise e, portanto, também pelos meios de a resolver”.

Tusk, que mantém uma tensão relação com Nawrocki, reforçou que apoiar a Ucrânia na luta contra a invasão russa é do interesse da Polónia.

“Se a Ucrânia perder esta guerra, se isso acontecer, a Polónia encontrar-se-á numa situação dramaticamente mais difícil”, afirmou na terça-feira.

A decisão de Nawrocki surgiu antes da realização de uma conferência internacional sobre a reconstrução da Ucrânia no final do mês em Gdansk (norte), coorganizada por Zelensky.

De acordo com uma sondagem recente do portal online Onet.pl, 65% dos polacos acreditam que a decisão de Zelensky tem um impacto negativo na perceção das relações entre os dois países.

Outra sondagem publicada no início deste ano mostrou que 48% dos polacos ainda apoiam o acolhimento de ucranianos, enquanto 46% se opunham.

Logo após o início da invasão russa da Ucrânia, 94% defendiam o apoio de Varsóvia à receção de refugiados.

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