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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

2/07/2023 05:15

Era na saia de dentro que se pregava o bentinho, um coração minúsculo talhado num tecido grosso e com não sei o quê lá dentro, talvez alecrim, que era levado ao senhor padre para ser benzido e para dar sorte. Nunca se tirava dali o bentinho e aquilo dava uma força tão grande, capaz de suportar as grandes agruras da nossa vida. Mais resultado dava, quando as mães fechavam janelas e tapa-sóis e se ajoelhavam na frieza dos quartos a rezar a Deus, pedindo que os filhos tivessem sorte nos exames da escola ou nos pontos, como se chama hoje aos testes. Minha mãe dava-me sempre força e dizia "O que vai ser vai zoar", ou seja, faz a tua parte, que o que tiver de ser há de ser. "A mãe vai rezar a Deus, na hora do ponto, e tu tens o bentinho, reza tu também" - dizia ela. Era esta a minha grande confiança, porque eu já sabia que haveria sempre um cantinho destinado para mim neste mundo, ou mais à frente ou mais atrás. Cada um cumpre o seu dever e Deus não se esquece de ninguém.

Só voltei a me lembrar do bentinho e da sua importância, quando a Maria Luísa começou a trabalhar na nossa casa, depois da doença de minha mãe. Ela queria ser enfermeira, mas não foi. Muito tranquila, ela usava o seu bentinho, acreditava com fé no Bem e tinha sempre histórias para contar - o próprio Cristo contava parábolas para se fazer entender, junto das multidões. Assim é quem tem um coração grande e aceita com paciência a sua vida e faz-se grande no seu caminho, por mais pequeno que esse caminho seja! Assim é!Aqui há dias estive numa palestra sobre o futuro da juventude e também ouvi contar algumas histórias. Devo dizer que adorei - É que não é toda a gente que sabe contar histórias e então descontextualizadas, são do piorio! - Uma das histórias contadas pelo preletor era a de um jovem estagiário, com formação superior, que desatou a chorar, quando o seu orientador lhe apontou um erro.

O que é isto, no século XXI? Não será melhor voltarmos ao bentinho e às rezas das mães de portas e janelas fechadas?

Eu cá não sei onde isto vai parar!

Sílvia Mata escreve ao domingo, de 4 em 4 semanas

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