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Artigo de Opinião

Professora Universitária

5/01/2026 07:35

Não choraremos Maduro. Pelo contrário. O chavismo, regime autoritarista, típico do fascismo tropical, repressivo, violento, predador das riquezas do país, caracterizado pelo desprezo pelas necessidades da população, não deixaria saudades. O problema é se, afinal, se manterá, negociando e abrindo caminho às pretensões comerciais de Trump: não nos enganemos, o presidente americano agiu por interesses económicos e não como farol da democracia.

Trata-se, no fundo, de uma questão de intenções. Os E.U.A. não entraram em Caracas por necessidade, para travar corredores de droga, que até são muito mais alimentados por outros países, como a Colômbia ou o México, mas por uma opção. Com grandes problemas económicos em casa, a administração, a partir da estância de Mar-o-Lago, resolveu colocar as mãos numa das maiores reservas de petróleo do mundo, mas também de outras matérias-primas de que a Venezuela é rica.

No fundo, a mudança de regime de que Trump se envaidece, garantindo um governo americano (...sobre os poços de petróleo) até o estabelecimento de um estado democrático, é problemática. Basta lembrar as guerras do Afeganistão, do Iraque, da Líbia ou da Síria. Sem nos determos na ilegalidade da ação militar num estado soberano, consideremos o que é uma mudança de regime. Ela não parte da ação das forças armadas de um outro país: estas têm o objetivo de defender, dissuadir adversários, atacar um objetivo, atingir um alvo, etc., autorizadas pela lei. A mudança de regime é um ato político, não uma ação isolada. Substituir um regime exige mais do que uma ação militar: requer alianças, vontades, forças de segurança, gestão dos assuntos civis, planeamento e disposições para uma verdadeira capacidade de organizar eleições democráticas. Também envolve custos: o desmantelamento de forças militares e construção de novas, a reconstrução de instituições que eram geridas por elementos do antigo regime, a estabilização da economia. A mudança de regime não significa apenas remover um líder, porque existe todo um aparato governamental e uma ordem política que é necessário substituir, legitimando o governo que se segue.

E não pode existir uma mudança sem o alicerce da legitimidade que se apoia na vontade de um povo e se consubstancia num compromisso governamental abrangente e de longo prazo. O risco da imposição que exclui negociações e a cultura de um povo pode ser catastrófico, especialmente num país em que a ordem tentacular repressiva criada por décadas de chavismo se expandiu dos militares às coletividades dos bairros.

Trump declara uma nova ordem com frases simples, mas não apresenta um plano, não discute opções, e mostra-se mesmo disponível para manter a atual vice-presidente se esta garantir os interesses económicos americanos. Negociar, mesmo com ditadores, é, afinal, um comportamento a que estamos habituados no que ao presidente Trump diz respeito. Aliás, como considerar a invasão de um país soberano para dele retirar um suspeito, quando ao mesmo tempo se dá o perdão ao ex-presidente das Honduras, condenado a prisão por tráfico de droga por um tribunal americano?

As ações na Venezuela são, também, os resultados visíveis de uma nova ordem mundial baseada no poder militar das grandes potências mundiais que impõem os seus interesses, as suas opções económicas e políticas, numa lógica expansionista. Se se age por opção, nada impede a China de invadir Taiwan, a Rússia a Ucrânia, os EUA de se afirmarem na Gronelândia e de apoiarem a extrema radical nacionalista e pró-trumpiana (o que não deixa de ser um paradoxo: a defesa dos valores nacionais subordinados aos objetivos americanos) na União Europeia, o rival comercial a abater, como afirmado no Plano Estratégico Nacional americano. O que impede Putin de ir prender o presidente ucraniano ou de Trump raptar Putin?

No momento em que a linha foi ultrapassada, com Trump a usar força militar num país estrangeiro que acusa de conduta criminosa, quem pode travar a quebra das regras e o avanço de um caos global que os regimes autoritaristas explorarão a seu favor?

Nada disto absolve Maduro, que deve ser julgado em primeiro lugar pelo seu próprio povo, aquele que defraudou. Lembrando que a nossa força reside na lei, nas normas democráticas e no humanismo. Quando abandonamos esses princípios, perdemos a credibilidade, colocamos em perigo a estabilidade mundial e somos apenas marionetas da ganância e da vontade de domínio.

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