Chamar alguém de preto não é só apontar uma característica física! Não é o mesmo que chamar anão a um tipo rasteirinho. Nem é o mesmo que chamar gordo a um fulano de abdominal volumoso. Ou careca a um despido de pêlo no topo da cabeça. É mais do que isso. É lembrar-lhe do passado. Do tempo em que os indivíduos de raça negra eram invariavelmente desvalorizados. Palavra de honra. A escravidão de pessoas negras foi um processo histórico, que transformou a cor negra em sinónimo de sujeição. Não só por isso, mas também, é que eu acredito e defendo que chamar um preto de preto não é o mesmo que chamar um branco de branco. Cada macaco no seu galho.
Parece-me óbvio, portanto, que dirigir-se a um indivíduo escurinho como “preto” não deve ser opção. Estamos de acordo? Creio que sim... Mas será que confundirem-nos com animais é ofensivo? Depende. Sim, depende... Pela mesma ordem de ideias, quando usamos nomes de animais como ofensa, não é só uma escolha de palavras. É a repetição de uma lógica antiga. Especismo é a ideia de que algumas espécies são inferiores e, por isso, podem ser desrespeitadas, exploradas ou usadas como insulto.
Porém, eu acredito que os “nomes” e a sua carga dependem muito do momento, da forma e de quem os profere.
Ora vejamos, se a minha mulher, no calor do momento, me chamar de gatinho eu não levo mal. Até gosto! Tigrão? Ui ui. Adoro. Vou à lua e venho. Mas se for o meu vizinho de baixo, no elevador, temo não estimar. Percebem a diferença? O nome é o mesmo. O destinatário também. O contexto não!
Por estes dias pensava nisso pois o mundo parou. Porquê? Supostamente porque um raça anã descolorado tapou a boca para chamar mono a um colega de profissão mais provocador. Achei completamente desajustado. Afinal de contas, mono eu chamo a alguém pouco ativo ou sem iniciativa. No máximo algo sem valor e que não tem procura. Não era de todo o caso.
1.º porque o rapaz é um talento inquieto e tinha acabado de marcar um golo de levantar o estádio. Só que o estádio era do adversário e manteve-se sentado. Não satisfeito pela inércia ou falta de reconhecimento pelo feito, lembrou-se de ir esfregar-se na bandeirola de canto e sorrir para os adeptos contrários! Aí sim. Levantaram-se em massa. Conseguiu, portanto, o que queria.
2.º mesmo sendo feio como a noite (isto pode escrever-se, não se pode?), tem saída. Namora com uma rainha da bateria e já foi capaz de a trair. Se isso não é ter mercado, vou ali e já venho.
Na volta é que soube que mono, na língua comprida do curto das pernas, era macaco. Ah tá. Agora faz sentido, sim. Quem olha, de repente, até tem parecenças sim. E olhem que eu não sou dos melhores no que a detetar semelhanças diz respeito. No entanto, pior estou eu e nunca me viram fazer de vítima. É que eu venho da família dos macacos da Boa Nova e nunca percebi porquê! Está bem que não conheci o meu bisavô materno, mas a guiar-me pela carinha da sua filha, de símio devia ter muito pouco. Talvez por isso a minha avó se incomodasse tanto quando a chamavam tal coisa. Já o meu pai estava a marimbar-se. Antes macaco que “caga d’alto” ou “merda seca” como alguns amigos. Eu então... É para o lado que durmo melhor. Para os nomes que às vezes me dirigirem, esse roça o elogio.
Elogio faço eu aos “nossos” deputados laranjas na Assembleia da República. Então não é que aqueles três monos (no bom sentido naturalmente) furaram a disciplina partidária e votaram contra os macacos da mesma cor? Palavra de honra. Isto depois de terem sido silenciados pelo seu babuíno líder par(a)lamentar, com a conivência do gorila-mor. Agastado com esta macaquice toda, o chimpanzé sexy de risca ao meio cá do burgo já reagiu. “Isto é um disparate, tudo o que se está a passar”. Concordo. “Se se atreverem a condicionar ou retirar a palavra aos nossos deputados, passamos a independentes. Eu não estou a brincar”, disse o democrata. Ora bolas. Mas isso não eram os do Chega daqui? Já não percebo nada de nada. É o fim da macacada.
Pedro Nunes escreve ao domingo todas as semanas.