Há dias, numa consulta anual de rotina, dei por mim a falar com a médica, em grande parte da consulta, sobre questões laborais e adiantava-me ela que uma larga maioria das suas pacientes, e até familiares seus, se queixavam do trabalho, nomeadamente apontando pontos que configuram a denominada “toxicidade laboral” - isto, quando face às respostas públicas e privadas que, nos dias de hoje, nos são exigidas, tudo o que menos nos deveria preocupar seria um ambiente de trabalho tóxico.
Recentemente, foi noticiado que dois dirigentes de uma Câmara Municipal estão a ser alvo de um processo por assédio laboral a vários funcionários, aos quais, durante anos, intimidaram e destrataram, inclusive acusando-os de “não saberem fazer nada”. Esta, é, lamentavelmente, “só” mais uma história entre milhares no país...E os recursos humanos, também lamentavelmente, nem sempre conseguem (ou se determinam a....) estar atentos aos sinais de toxicidade nos ambientes de trabalho, que causa desconforto e stresse mental em que lá trabalha, não raras vezes devido a chefias abusivas, mas também por colegas com propensão de autocratas.
E esta cultura tóxica não afeta só, pessoal e laboralmente, os trabalhadores, mas, inevitavelmente, também o serviço, podendo reduzir a qualidade global do trabalho na empresa ou serviço público. Uma das consequências destes ambientes (mas também um seus dos sinais) é o absentismo ou mesmo a vontade expressa dos funcionários para sair e mobilizar-se para outros serviços ou empresas (elevada taxa de turnover e rotatividade, muitas vezes com aumento dos custos de novos recrutamentos, a par da desacreditação moral no local de trabalho) e à perda de produtividade do organismo laboral. Ou seja, estes ambientes têm mais dificuldade em reter quadros e em atrair novos talentos.
Mas há mais sinais caracterizadores deste tipo de ambientes, como sejam a normalização do bullying, com “bilhardices” (sim, este regionalismo define bem este quadro de toxicidade) e agressões verbais em tom intimidatório ou disfarçadas de “piadas”.
Num ambiente de trabalho que se quer saudável - o que deve ser uma exigência em qualquer organismo ou empresa! – o trabalho em equipa é uma constatação, assente na motivação individual e colectiva e na confiança entre todos, com o propósito comum da concretização de um trabalho definido (nunca unilateralmente) pela hierarquia.
É imperativa a criação de ambientes de trabalho positivos, sob o risco de se promover uma sociedade maioritariamente doente, desmotivada, esgotada, ansiosa, deprimida e infeliz. Saber o que é a toxicidade laboral, e identificar um ambiente de trabalho tóxico, ajuda a que se evite este contexto de comportamentos negativos, frequentemente a raiar o passivo/agressivo, inibindo, desta forma, o empenho, dedicação e produtividade de quem trabalha e, em última instância, também prejudicando clientes e o serviço prestado ao público.
Fica, enfim, também comprometida a missão primordial empresarial, ou do sector público, que é a de servir o interesse de quem os procura, assegurando o funcionamento eficiente da prestação de serviços, além do bem-estar de todos os envolvidos, trabalhadores e demais cidadãos.