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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

16/01/2022 08:00

E era, para mais redobradas mágoas, ao sábado à tarde, logo na hora em que estava dando o "Bonanza" na televisão a preto e branco com o "litle Joe", um borracho de morrer, que ela entendia de chamar por mim para lhe ir arear as costas com um pano turco e sabão azul, produto de beleza desinfetante daquele tempo. Justamente àquela hora! Esfrega aqui, esfrega ali, que terra velha não era com ela. E eu não ia logo, porque aquilo não tinha interesse nenhum e "Bonanza", sim. E quando ia, ela já estava cansada de estar cansada e irada. Mas falava com jeitinho para eu não lhe fugir pela porta fora. Sabida! E depois, voltava à mesma conversa de ser uma triste e de não ter quem lhe pregasse um prego. Voltava também a aquecer a água e despia-se da cintura para cima, menos o soutien, a que ela chamava o "corpete". E o soutien "triunph" era sempre preto e ela explicava que a roupa interior deve ser sempre boa e preta para não encardir. Assim, não é preciso deitar sempre a coarar e não se estraga tão depressa! Às vezes, ela usava o sabonete "Lux" ou "Musgo" comprados na Casa Catanho. O quarto ficava a cheirar tão bem! E eu a olhar para ela, mulher bonita, questionava o milagre do crescer daquelas duas montanhas, quando o meu peito era tão liso como a palminha da minha mão. E depois de areadas as costas, sem nunca tirar o corpete, ela enxotava-me, como se faz às moscas, pela porta fora para acabar de se lavar na banheira de zinco. "Agora vai, vai brincar! Muito obrigada, minha querida! Passar bem! Segunda-feira, a tia traz o bolo". O bolo era o tal, a cornucópia com creme amarelo.

Naquele tempo, era fácil pagar um favor e contentar um guloso! E eu a engolir o riso, deixava-me enxotar e ia espreitar tudo pelo buraco da fechadura da porta. Mas ela, que já sabia, pendurava na chave a toalha e eu via tudo preto. Malcriada manhosa!

Depois, muitos anos depois, a tia Elvira, já velhinha, na hora do banho geral do sábado à tarde, não queria lavar as costas. Estava a ver televisão a cores. Não senhor! Não me condenes! Agora não! Que agora está a dar aquele senhor muito bem lavado, muito bem engomado que fala muito com as mãos! Horizontes da Memória! José Hermano Saraiva! Nem penses! Que tinha frio! Que não tinha andado cavando! Que não era preciso! E mandava-me a mim lavar as minhas costas, que tu não és mais fresca do que eu! "Vai! Vai tu te lavar! Não me atormentes!"- dizia ela.

Depois, farta de estar estuporada comigo, deitava-me pela porta fora aos empurrões. E eu, desorientada com aquilo, sem saber desmanchar aquela choca, com muita cautela, pedia pelo buraco da fechadura à tia Elvira que ela abrisse a porta e que, pelo amor de Deus, assinasse a eu lhe arear as costas! De dentro, quando a resposta não era um silêncio altivo de superioridade, a tia Elvira sentenciava: "Foge já da minha porta, sua cadela do cão!" E mais ameaçava: "Desanda, quando não eu vou gritar e vai acudir um ror de gente e tu vais ver o que te vai suceder!

Completamente desarmada, eu desejava poder voltar atrás no tempo, ao tempo da televisão a preto e branco e do banho geral com sabão azul ao sábado à tarde, ao tempo da paz e da inocência em que eu espreitava a tia Elvira pelo buraco da fechadura e via tudo preto!

As voltas que o mundo dá!

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