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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

30/07/2023 04:53

No tempo de meu pai, nos anos cinquenta, o material da nossa casa já caiu um pouco mais acima, no Caminho do Palheiro, junto à venda de João da Paz. Conforme era costume, meu pai alugou um burro para lhe acartar a areia e o cascalho. O burro não subia as Pedras, propriamente ditas, porque só quem se lembra do abismo que aquilo era por ali fora, pedregulhos em cima de pedregulhos, um verdadeiro abismo a descer, um calvário a subir; não havia cá passadas nenhumas em betão, como há agora. De modo que o animal tinha de passar no terreiro da senhora Virgínia, mas às vezes fazia finca-pé e era preciso uma paciência de santo para convencê-lo a andar. Espera-te, que se não vais a bem, vais a mal! E lá lhe armavam uma fogueira junto às patas traseiras para pô-lo a trotar. Coitado do bicho!

Tirando a parte do burro, quando a tia Elvira fez a sua casita tão arreitada no alto da colina, foi mais ou menos igual. O marido mandava-lhe um dinheirinho da Venezuela e ela contratava os pequenos disponíveis para lhe porem o material debaixo dos olhos dela. Raul era um garoto ainda, mas um matulão com corpo de homem, cheio de força. Para fugir à estrefega, ele apavorava a tia Elvira dizendo que desistia, porque já tinha as canelas esfoladas dos silvados e dos trambolhões da caminhada. Ela que não, pelo amor de Deus! E fazia-lhe o curativo com mercúrio vermelho num belisquinho de algodão. "Amigo, vai dar mais um caminhinho, que agora já estás bom! Vai que vais receber o teu dinheirinho!"

Nos anos oitenta, a Ladeira dos Estanquinhos foi sendo melhorada, de tal maneira que quem não tem medo daquele abica-burros, hoje, pode subi-la bem.

Quando eu comecei no meu casebre, nos anos noventa, um anexo junto à casa da tia Elvira, o material começou a vir do Lombo da Quinta. O meio carro subia a Ladeira, vai-te se te queres ir, com um pozinho de areia no fundo da carroçaria. E era um dinheirão cada carrete! Foi quando a senhora Maria me deu o número do Evaristo, um homem do Curral dos Romeiros, que subia sem problemas nenhuns a Ladeira dos Estanquinhos, no seu camião, com moios de areia ou de cascalho, o que fosse preciso. Descarregava o material no chão da venda, recebia o dinheiro e ia-se embora. Depois, era arranjar homens para acartar aquilo tudo até ao terreno, ajeitar um lugar seco e proteger o material da chuva. Alberto dos cabides, quando não estava bêbado, era bom para isso tudo.

Não sei o que aconteceu ao Evaristo que deixou de aparecer. Lá a senhora Maria me deu o número do senhor Fernando, um carregador do lado do Caniço que já tinha nesse tempo um género de telemóvel no carro para contatar os clientes. Telefonei muitas vezes ao senhor Fernando, encomendando material, conforme os mestres pedreiros me orientavam. Três moios de areia, três de cascalho, etecetera… Tudo certo! Contas certas!

Um dia, Alberto falhou, não estava a horas para receber o material nem entregar o dinheiro ao senhor Fernando, mas ele, que confiava em mim, despejou a carga no lugar do costume. Depois ficou combinado o dia do acerto das contas. Eu não o conhecia, mas imaginava, pela voz, que ele fosse um homem alto, trigueiro e seco. Era, afinal, um simpático senhor, já de certa idade, baixo, roliço, a pele rosada.

- Eu pensava que o senhor era alto e trigueiro para trabalhar com um camião, e afinal parece que vive sentado a ver televisão - disse eu.

- Olhe, e eu pensava que a senhora era um mulherão que metia medo, para mandar vir tanto material, e afinal é uma menina de metro e meio que parece que ainda brinca com bonecas - disse ele.

E rimos muito.

Sílvia Mata escreve ao domingo, de 4 em 4 semanas

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