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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

15/06/2023 08:00

Havia duas mulheres deste lado de São Gonçalo muito amigas. Uma, a Maria, mais caridosa do que a outra, quando ia à cidade, dava um tostão ao pobre que vivia estendendo a mão ao pé da porta da Sé, que era para Deus lhe deparar em dobro, como agora se diz, para o universo lhe trazer de volta. A outra, a Agostinha, não percebia nada daquilo, porque esticava o seu dinheirinho pelo mês fora, mas não lhe ficava nada nos cantos da gaveta para caridades. E por mais que matasse a cabeça a fazer contas, as patacas não lhe rendiam. C’ma é isto? Eu cá não sei! A Maria ensinava-lhe: "Tens de dar para Deus te dar também!"

Um dia foram as duas fazer uma visita ao pai da Maria, que estava internado no hospital do Monte, então não sei se com tuberculose, que era muito comum naquele tempo. Como não havia dinheiros para gastar no horário, que era preciso tomar dois, um daqui para baixo, outro, da cidade para o Monte, elas, já se sabe, foram a pé, por aqui p’ra lá.

Combinaram tudo como ia ser e de manhãzinha à boca dos pinheiros lá estavam as duas prontas para a estrefega. Quando a Maria viu a Agostinha bem calçada, fez o reparo: "Pois olha que tu levas os sapatos da missa!" A outra respondeu: "Então tu não sabes que a pobreza faz riqueza? Eu ia lá trazer os sapatos de andar em casa todos escabaçados?" Lá foram. Passaram a ribeira, atravessaram o Caminho do Terço, sempre por ali adiante, por veredas e barrancos, cruzaram o Caminho do Meio, chegaram à Choupana, cortaram pelo Curral dos Romeiros e assim até ao Monte.

Claro que pelo caminho se sentaram nas pedras a merendar uma côdea de pão com banana. A Agostinha levava favas numa terrininha de alumínio e partilhou com a amiga. "Come, come! Vê se estão bem temperadas! Foi o meu Manuel que arranjou para a gente!"

Depois, a Maria, como andava com uma pontada de "resmate" na perna direita, tirou de dentro do cestinho de vimes, um frasquinho de vidro bem atarraxado com uma infusão de ervas em álcool e pôs-se a esfregar a barriga da perna. Aquilo cheirava que era um regalo e a Agostinha começou logo a cramar que de verdade também ela tinha uma dor que lhe começava nos rins, tomava-lhe o quadril, ia-lhe pela perna abaixo, sempre, sempre, até ao tornozelo. Não era nada que não pudesse sofrer, mas… A outra deitou-lhe na mão, a medo, para não desterrar, uma gota, não mais, do preparado misterioso. A Agostinha recebeu aquela esmola e pôs-se também na sua esfregação.

Puseram-se de pé e a caminho. E mais uma vez, ao cabo de uma hora, hora e meia, a Maria parou para reaplicar o remédio na perna. A outra fez-se gulosa e queria também mais um pinguinho do milagre, porque de verdade aquilo dera-lhe um alívio. Foi quando a Maria disse "Não senhora, não te dou mais! Já te dei! Isto agora é para mim! O álcool é muito caro!"

- Pois, tens razão, não faz mal - respondeu a outra e sofreu calada o que tinha a sofrer, que isto o que há mais reles de conhecer é gente, não é cachorro. E, em silêncio, ia pensando: "Espera-te, que Deus vai-te dar em dobro o tostão que tu deitas na mão do pobre da porta da Sé, sem sequer olhares para os olhos dele!... E eu aqui a te fazer companhia para não vires sozinha ver teu pai, que isto ainda é um esticão…"

Bem, isto passou-se! Pela Festa, a Agostinha visitou a amiga para ver a lapinha.

- Olha, trago-te aqui uma coisa para lembrar a Festa! - e tirou de dentro do seu cestinho, uma garrafinha de álcool - é para fazeres a infusão das dores ou um licorzinho de tangerina.

Já se sabe que a Maria engoliu em seco e percebeu o recado.

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