Leandro Silva era, até há bem pouco tempo, um perfeito desconhecido. Pelo menos para mim era... A única vez que me tinha cruzado com ele foi no Mercado dos Lavradores enquanto assistia às tradicionais cantorias. Pareceu-me sóbrio! Palavra de honra. Alegre, sorridente e a viver a festa, mas sóbrio.
Na altura não quis dar parte fraca e perguntar quem era. Fui antes ao “arquivo” e tirei a “ficha”. “Leandro Silva, 28 anos, licenciado em Direito e escolhido pelo CDS fica responsável pelos Assuntos Jurídicos e Recursos Humanos, entre outras matérias”. Pronto. Nada contra. Se não raras vezes nos queixamos de que os intérpretes são sempre os mesmos do costume, quando surge gente “nova” vamos logo deitar abaixo? Não. O mínimo que devemos fazer é dar o benefício da dúvida. E eu estava disposto a dar. Estava pois.
Porém, findo o espetáculo pirotécnico da passagem de ano, depois de mastigar as 12 passas, confundir pedidos, dar o primeiro mergulho do ano e comer a canja da praxe, fui embora deitar-me. Não me custou muito a adormecer. Ainda a minha mulher não me tinha ido fazer companhia e já estava eu para lá de Bagdade. Só que foi sol de pouca dura. Dormi mal. Acordei com o vento. Estava com um mau pressentimento. Não sei explicar. Parecia que estava a adivinhar chuva...
A muito custo lá voltei a pregar olho. Mas assim sempre no pára-arranca, sabem?! Sem saber bem que horas eram, lá desisti do ócio e fui para a sala. Fazer o quê? Continuar o mesmo nada que até então tinha estado a fazer, só que com a cabeça mais elevada.
Peguei no telemóvel e, no meio de algumas felicitações e votos de bom ano, tinha uma notícia. E pelo remetente era coisa séria! Sim, aposto que vocês também têm contactos mais “cirúrgicos” do que outros. Há uns que nos enchem a caixa de mensagens com entulho. Outros que partilham coisas interessantes. E por fim há aqueles que só mandam o que realmente importa. No meu caso há ainda aquele. O tal que, quando vem mensagem, é a sério! Curioso, abri e... “Vereador do Funchal suspende mandato depois de ter atropelado uma pessoa sob o feito do álcool”. Cruzes credo. Ainda eu não me tinha levantado a sério e alguém continuava de pé muito pouco sério.
De cima para baixo, pensei logo no vice. Coitado. Ninguém está livre. Por sorte não foi. A 3.ª eu cá acreditava que não podia ser. Quase que punha as mãos no fogo. O 4.º? Também não. A 5.ª? Tal como o 4.º e a 3.ª, também não tinha ar disso, mas quem vê caras não vê balões... 6.º? Voilá. Nem mais nem menos. O prémio tinha saído ao tal rapaz feliz e bem-disposto da noite de 23. Nem queria acreditar.
Só o comecei a fazer quando li o que escreveu na primeira pessoa: “Esta manhã, dia 1 de janeiro, após os festejos de fim de ano, atropelei uma pessoa, na rua do Carmo, no Funchal”. Calma. Talvez não tenha tido a culpa toda. É que, desde que inventaram aquele sinal que dá prioridade aos peões em plena faixa de rodagem e estes, sabendo desse “poder”, até atravessam a estrada de costas viradas para os carros, ninguém faz ideia por cima de quantos já me apeteceu passar...
“Infelizmente, tinha bebido e a taxa de alcoolémia registada pela PSP, com quem colaborei desde o início, foi de 1,99”. Eitaaaa. 1,99? Isso foi mesmo assim com esses dígitos ou já foi arredondado para os saldos? Não sei. Não faço ideia. Como vos disse, não estava lá. Mas uma coisa é certa. Aquilo é que foi emborcar, hein?! Mas quem sou eu para falar?! Quem nunca errou que atire a primeira garrafa.
“Em primeiro lugar peço as minhas sentidas desculpas à pessoa atropelada, a quem socorri logo após o acidente, e espero que recupere rapidamente”. Bem, imagino o socorro. Se fosse eu, com esse sangue no álcool, o máximo que conseguia fazer era aninhar-me ao lado do “infeliz”.
“Peço desculpas a todos os cidadãos porque cometi um grave erro ao conduzir sob o efeito do álcool quando deveria ser um dos primeiros a dar o exemplo de não o fazer”. Caro Leandro, como cidadão, da minha parte está mais do que desculpado. Vai um brinde?
“Peço desculpa ao senhor Presidente da Câmara e ao Presidente do CDS, uma vez que a minha conduta, da qual me arrependo profundamente, não honra estas instituições (...) Sei que o meu comportamento é reprovável e assumo todas as responsabilidades inerentes a este meu grave ato”. Vá. Também não é preciso ficar assim. Caramba. Já vi gente fazer muito pior e não demonstrar arrependimento algum. Um deles, veja só, atropelou, por mais que uma vez, quem se meteu à frente. A reincidência (coisa que ainda não se aplica a si) não deu direito a castigo. Longe disso. Tem sido antes sempre a subir. Por isso, vá. Ânimo. Aconteceu. Pronto!
“Nestas circunstâncias, pedi hoje, mesmo, a suspensão do mandato de vereador na Câmara Municipal do Funchal. Lamento o sucedido, quero ser julgado e pagar pelo que fiz e prometo que tal comportamento não se voltará a repetir”. Vá. Já pedi calma, não já? Que pressa é essa? Nesse “hoje, mesmo” ninguém trabalhava. E no dia seguinte a esse, também poucos foram os que iam fazer algum. Chega de dar trabalho, por favor.
PS, Caro Leandro, agora a sério, se ainda me estiver a ler, aceite os meus cordiais cumprimentos. Embora muitas vezes caiamos na tentação irracional de o fazer, não são os erros que nos definem. Mas as reações aos desacertos, sim! E se errar é humano, reconhecer e procurar corrigir já não está ao alcance de qualquer mortal. A vida continua. Para si e, desta vez, para quem se cruzou consigo.
PS PS, Já eu fico apenas com um amargo de boca. Ao mesmo tempo que aprecio e louvo a postura do Leandro, revolta-me perceber que o faço por ser uma excepção à regra. Hoje em dia fazer apenas o certo já é motivo de admiração. Não estará mais do que na hora de voltarmos a nivelar-nos por cima? Pensem nisso...