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Artigo de Opinião

4/03/2023 08:00

A cena granjeia gostos e o pessoal enche-se de orgulho, mas imagino que o coitado se deva revirar na cova de cada vez que lhe usam o nome em vão. Nestes enredos da língua, começa a afigurar-se-me que alguém que saiba ler e escrever se vai sentindo apátrida. Fiz a quarta classe, andei no liceu e apesar de me impelirem as letras, os ventos da vida levaram-me para o Direito, onde o valor das palavras não é despiciendo. E, ao final, fiquei convencido de que já usava a língua pátria num traço minimamente escorreito e aceitável.

Mas eis que, tempos mais tarde, houve uns rapazes muito sabedores que fizeram aprovar uma coisa chamada novo acordo ortográfico e eu, na minha mania de que já sabia ler e escrever, fiquei sem pátria e sem chão, como se me houvessem mandado para os bancos da primária para aprender tudo de novo. Casmurro, desisti de aprender e uso uma escrita errada e enviesada. Sossega-me a alma o facto de não ser o único, até porque nesta trama linguística, do novo e do velho, julgo que já ninguém sabe com que linhas se cose verdadeiramente, nem que seja porque urdir um fato, de facto, não é a mesma coisa que trajar um fato.

E como se não bastasse, agora há outra na berra. Sempre pensei que quando o Botas ou o Marcelo nas conversas em família se dirigiam aos Portugueses, estavam naturalmente incluídos todos: homens, mulheres, nascituros e concepturos. Mas alguém agora descobriu que não é bem assim, que o termo os Portugueses é uma coisa de macho que só se refere aos portugueses homens e que é preciso neutralizar a referência ou torná-la inclusiva. Melhor é dizer portugueses e portuguesas e já agora todos os outros, aliás, outres, para que ninguém fique melindrado.

Aqui não resisto ao gracejo de lembrar que o povo superior Madeirense, e Porto-santense (como se este também não fosse madeirense), sempre foi inclusivo porque desde tempos imemoriais usava já o todes, o juntes, o somes. Aliás, a senhora da publicidade dos óculos ainda os usa. Que os use, ou o povo alegremente desacerte, mostra a bonita genuinidade de quem não aprendeu e a mais não é obrigado. Deve merecer-nos simpatia e indulgência e não um circo jocoso, porque a genuinidade é de louvar e não incomoda ninguém.

Mas o que dizer de gente, que se crê importante, que vomita calinadas de bradar aos céus; de quem se atreve a escrevinhar com um pretenso estatuto de fazedor de opinião, ou com o título orgulhoso de profissional da comunicação, mas não domina minimamente o léxico e a sintaxe da língua de Camões? Ó pátria tão maltratada. Em boa verdade isso também já nada interessa, o domínio da língua portuguesa é hoje irrelevante, não dá estatuto, nem impede de afocinhar no mundo dos interesses ou da politiquice e o importante é desfiar a cartilha e endrominar quem pouco entende. Mas que se estenda à comunicação social é preocupante. Cada profissão tem o seu instrumento e o da comunicação social é a palavra, a língua e por isso um pedreiro não usa bisturi. À comunicação de massas, enquanto veículo de conformação da opinião pública e de edificação cultural, devia caber uma função didáctica.

E porque se abusa dos estrangeirismos, num pretensioso tique de erudição, vai um galicismo que a pátria é para gente reles: "Honni soit qui mal y pense".

OPINIÃO EM DESTAQUE
Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira
11/04/2024 08:00

A finitude da vida é um tema que nos confronta com a essência da nossa existência, levando-nos a refletir sobre o significado e o propósito da nossa passagem...

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