Quantas vezes vemos no nosso dia a dia bebés no carrinho com o telemóvel na mão? Ou crianças pequenas a comerem enquanto deslizam o dedo pelo ecrã? Ou ainda pais exaustos que recorrem ao telemóvel como estratégia para acalmar, distrair ou ajudar a adormecer? Estas situações tornaram-se tão comuns que, muitas vezes, já não são questionadas. No entanto, é importante fazermos uma pausa para refletirmos sobre o impacto precoce dos ecrãs no desenvolvimento infantil e sobre o papel essencial que os adultos têm neste processo.
Os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento neurológico, emocional e relacional da criança. O cérebro do bebé desenvolve-se através da interação com o outro (adultos ou outras crianças), do contacto visual, da linguagem, do toque e da exploração sensorial do mundo real. Quando o ecrã assume um papel central nestes momentos, substitui experiências que são essenciais à autorregulação emocional, à tolerância à frustração e à construção do vínculo. O uso frequente de ecrãs em idades precoces tem sido associado a dificuldades de atenção, atraso no desenvolvimento da linguagem, maior irritabilidade e menor capacidade de brincar de forma autónoma.
É importante sublinhar que o problema não é apenas o tempo de ecrã, mas sobretudo a forma e a função que este assume. Quando o telemóvel é usado constantemente para silenciar o choro, evitar birras ou preencher qualquer momento de espera, a criança não aprende a lidar com o desconforto, o tédio ou a frustração. Estas são competências fundamentais para a promoção de uma boa saúde mental e para a prevenir a dependência dos ecrãs, uma vez que este uso frequente dos ecrãs pode (de forma desadaptativa) ser usado para lidar com emoções desagradáveis.
Neste contexto, o modelo parental assume um papel crucial. As crianças aprendem mais pelo que observam do que pelo que lhes é dito. Pais que estão constantemente com o telemóvel, distraídos durante as refeições ou ausentes emocionalmente por estarem “presos” ao ecrã, transmitem implicitamente a mensagem de que o dispositivo é prioritário. Uma coerência entre o discurso e o comportamento é essencial: não é expectável que uma criança tenha uma relação equilibrada com a tecnologia se os adultos à sua volta não a têm.
A literacia digital surge, assim, como uma competência indispensável para as famílias. Não se trata de diabolizar a tecnologia, uma vez que tem inúmeras vantagens, mas de aprender a usá-la de forma consciente e adequada à idade e aos contextos. Definir limites claros, escolher conteúdos de qualidade, evitar ecrãs antes de dormir e preservar momentos de interação sem tecnologia são estratégias simples, mas altamente protetoras. Mais do que controlar, importa acompanhar, explicar e estar presente.
Investir numa relação saudável com os ecrãs desde os primeiros anos é uma estratégia fundamental de prevenção. Ao promovermos uma vinculação segura, uma autorregulação emocional e um pensamento crítico, estamos a proteger as crianças de hoje e os adultos de amanhã. A tecnologia faz parte da nossa vida, mas não pode substituir o olhar, a palavra e a presença — elementos insubstituíveis no desenvolvimento humano.