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Artigo de Opinião

11/02/2022 08:00

Mas, aqui ou ali, ainda é possível ter um ou outro diálogo ou debate interessantes. Foi o que me aconteceu esta semana, no perfil de Facebook de um amigo, onde todos os intervenientes apresentaram as suas ideias e contestaram as dos outros, com elevação, respeito e argumentação válida e inteligente. E foi isso o "leit motiv" para este meu artigo.

Aí discutíamos o perigo que o Chega eventualmente representaria para a democracia portuguesa e se teria feito bem António Costa, ao não receber a representação parlamentar do Chega. É preciso que se diga com todas as letras: a atitude de António Costa não assenta em qualquer sistema de valores ou princípios, mas deriva da sua profunda hipocrisia. Costa não teme o Chega, enquanto organização política. E não teme até porque foi ele quem empoderou o partido e foi por ele que o Chega teve uma tão expressiva votação. Por outro lado, o Tribunal Constitucional decidiu aceitar a inscrição do Chega, como partido político, o que significa que não é uma ameaça à Constituição.

Mas voltando à questão que esteve em debate com esses meus amigos, uns eram apologistas da segregação, saneamento e silenciamento do Chega, para evitar o seu crescimento e a disseminação das suas teorias mais radicais, e outros entendiam que a inteligência dos argumentos seria suficiente para desconstruir e mostrar a fragilidade do seu discurso. Ora, em minha opinião, estão ambos errados. O Chega coloca questões que preocupam muitas pessoas e na ausência de outras respostas, essas pessoas deixam-se convencer pelo que sentem. O populismo é isso: jogar com o sentimento das pessoas e é difícil argumentar contra um sentimento ou uma crença. Como defendia um desses amigos, é preciso tentar resolver os problemas reais que afetam as pessoas e nos quais o Chega surfa. Se o conseguirmos fazer, a esmagadora maioria dos atuais simpatizantes afastar-se-ão. Até porque a maioria dos eleitores não é radical, nem extremista.

Pergunta-me o leitor: há intervenções de dirigentes do Chega que preocupam? Claro que sim! Mas não me deixam mais preocupado do que ver a defesa que as manas do BE fazem do passado terrorista do pai, Camilo Mortágua, ou do discurso de ódio e incitamento à violência do bloquista Mamadou Ba. Olho para o programa do Chega e não vejo extremismos como aqueles que se vê no PAN, que assume que pessoas e animais estão no mesmo patamar moral, exatamente com a mesma dignidade, e que, por isso, devem ter o mesmo tratamento. A título de exemplo, sabia que o PAN defende que deveriam ser dadas aos animais as "condições jurídicas e políticas" que são dadas a humanos, para que "experimentem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade"? Ora, estas ideias são menos perigosas para a humanidade ou para a democracia do que aquelas que são defendidas por alguns no Chega? Se formos a pensar bem, talvez não sejam.

Em meu entender, apenas será possível expurgar do espaço público discursos políticos radicais, trazendo os partidos para o centro e normalizando-os. Não é normalizar o discurso radical, mas o partido e as pessoas, retirando-os do espaço radical para onde se deslocaram. Não é por discordar frontalmente com algumas ideias do PAN, do BE ou do Chega que me recusarei a discutir com eles. Não tenho de estar de acordo com tudo o que outra pessoa faz ou defende para conseguir ter uma base de entendimento com ela. É assim que promovemos a desradicalização.

Sobrará sempre quem, pela fraca aptidão psicológica, não seja possível desradicalizar. Mas se o fizermos com todos os outros, esses, os verdadeiros extremistas, os fanáticos, não passarão de uma minoria irrelevante e inofensiva.

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