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Artigo de Opinião

8/01/2026 08:00

Estamos em janeiro, mas, não tarda, chegaremos a março ou maio, e todos se vão lembrar do dia da mulher e do dia da mãe. Vão chover estatísticas sobre a (des)igualdade e umas notas de rodapé sobre a mulher.

Comecemos hoje, então.

Este não é um texto a pedinchar complacência. É uma reflexão conjunta, porque a igualdade que parece, por vezes, ser terra de ninguém, é território comum.

Comecemos hoje.

O documento dedicado à “Igualdade de Género em Portugal - Boletim Estatístico de 2025” mostra-nos que as mulheres são mais afetadas pela pobreza e privação material, são a maioria das vítimas de violência doméstica, estão sub-representadas em cargos no ensino superior e na política e asseguram não só maior parte do trabalho não pago, como o maior número de episódios de assistência à família.

Diz o “Barómetro das Diferenças Remuneratórias entre Mulheres e Homens” que as mulheres continuam a ganhar menos, sendo, contudo, de salientar, que a Madeira, nos últimos anos, reduziu, de forma significativa, esta diferença salarial.

É evidente que há muito caminho a percorrer.

Comecemos hoje.

Lembremo-nos, em primeiro lugar, que a igualdade não é, nem nunca será, uma partidarite com donos. É um princípio constitucional, um imperativo social e uma condição para uma sociedade mais justa.

A igualdade não é uma questão de quotas, de mulheres ou somente de políticas legislativas.

A igualdade começa em casa, nas escolas, nas conversas entre pares e na educação que damos aos nossos filhos. E estraga-se quando, em riste, apontamos o dedo aos outros para lhes criticar as escolhas, os feitos, as conquistas, a postura.

Se uma mulher se impõe é arrogante. Se um homem se impõe é assertivo. Quem nunca disse, quem nunca sentiu?

O The European Institute for Gender Equality reitera aquilo que está aos olhos de todos: existem compromissos e diretivas, mas a evolução é lenta e as lacunas são muitas.

Comecemos hoje.

Todos sabemos a teoria, mas a prática vem dela desacompanhada. E o mea culpa assenta-nos que nem uma luva.

No dia em que entendermos e aceitarmos que a igualdade é um princípio basilar da vida em sociedade, que congrega a competência e a idiossincrasia de homens e de mulheres e que não pertence ao mundo feminino, atingiremos o patamar de equilíbrio e o zénite que há muito almejamos.

Até lá, continuaremos a trilhar caminho e, quem sabe, refugiar-nos-emos, uma e outra vez, no que nos conforta. Bukowski dizia que “a poesia é o que acontece quando nada mais pode” e, não raras vezes, também é nela que me abrigo para lembrar que:

Mulheres:

Nem coitadinhas,

Nem enjeitadinhas.

Mulheres:

Quem querem,

Onde querem,

Quando querem,

Como querem.

Amantes, distantes,

Casadas, divorciadas,

Descontroladas ou

Enciumadas.

Sozinhas.

Quem querem,

Onde querem,

Quando querem.

Tudo. Nada.

Mães de todo o mundo,

Esplendor do que resta dele.

Mulheres.

Nem costela, nem braço.

Tudo o que há para ser.

Comecemos hoje. Antes de chegar a março.

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