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Artigo de Opinião

24/06/2023 08:00

O Homem foi feito para ser um poeta à solta, no dizer de Agostinho da Silva, seja qual for a sua expressão poética. "Pode ser a música, a literatura ou coisa nenhuma. Até pode acontecer que uma pessoa não seja absolutamente nada, de repente tenha uma ideia estupenda para o bem do mundo". A riqueza da humanidade e a sua beleza existencial reside justamente na individualidade, em não haver ninguém igual a ninguém, numa diversidade ilimitada que permite edificar, potenciar a evolução e o desenvolvimento humano, no esplendor da sua interacção. O grande problema na sociedade actual é o Homem tolher a sua individualidade às mãos de uma massificação estéril, de uma uniformização encegueirada e estupidificante do seu temperamento, a que não é alheia uma qualquer intenção lucrativa e de dominação humana. O capitalismo feroz e perverso faz incendiar a soberba e o seu desejo desenfreado de consumo, atiçando a ambição de um qualquer naco de poder, ou a ilusão dele, em que os homens se esgaçam incessantemente. Viver e deixar viver em liberdade é fundamental. Mas, hoje, ninguém parece querer ser o que é, na sua sadia e vulgar singularidade. Para espantar a brevidade da vida e a sua falta de sentido as pessoas perfilham e escravizam-se a estereótipos de comportamento, beleza e perfeição. Perderam-se os gordos, os feios e os velhos de outrora e a sua autenticidade. Em seu lugar todos querem ser magros, belos e jovens submetendo-se às mais grotescas atribulações. Fazem-se sacrifícios suados nas promenades e nos ginásios, em busca de músculos torneados, barrigas esculpidas, tragam-se comidas deslavadas, os peludos almejam ser pelados, os carecas cabeludos e os sorrisos hão-de ser alinhados e imaculadamente brancos. Vão-se perdendo as morenas arrebatadoras em maduras alouradas, de cabelos engomados quais vassouras de palma e vão-se esticando peles em bicos de pato e olhares espantados. E todos cobiçam esta ou aquela peça de griffe, um carro turbo-diesel e poder jantar no sítio da moda que logo se desusa quando o seguidismo e o culambismo adoptam outros rumos. E ninguém quer prescindir e parecer menorizado, todos são distintos e poderosos numa ilusão tresloucada. Até há quem ganhe a vida espalhafatosamente à conta de influenciar para este ou aquele adereço, vestuário ou local que a malta segue devotamente. Com o que se vai prostituindo a liberdade de ser quem e como é, perdendo a peculiaridade natural, o traço único que sempre suscita em alguém interesse, amor ou desejo. E, por mais que custe, é preciso aprender a desistir, a renunciar ao esplendor da Primavera e aceitar um sábio e sereno ocaso e a sua beleza, porque como disse Borges, o que deveras foi não se perde, a intensidade é uma forma de eternidade.

Nesta massificação endoidecida vai-se perdendo também o valor do conhecimento, do pensamento e da crítica, escravizados no empoderamento embrutecido da mediocridade e da estupidez. Os seguidismos de cartilhas, do politicamente correcto, da ditadura da ignorância e de ausência de sentido crítico vão relegando a cultura e o saber pessoal para uma ostracização ridicularizada, condenada ao silêncio. Uma sociedade inculta e interesseira nunca pode ser livre e o Homem despido das suas idiossincrasias será sempre uma mera sombra de gente e de si. Resta dizer, citando Somerset Maugham: "Só o amor e a arte tornam a existência tolerável".

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