Entramos nas casas como entramos nos livros, conhecemos os donos, os filhos, os netos, mais outras criaturas que as frequentam também, e até o cachorro o conhecemos pelo nome, hóspede na sua casota engendrada com tábuas e folhas de zinco, num canto qualquer do terreiro, mas também ele, parte da família.
Quem, do suor do seu trabalho, constrói uma casa tem um bico de obra na sua vida e nunca pensa que um dia vai perdê-la. Comer mal e vestir-se mal para ter uma coisa de seu neste mundo de engano, injusto e cruel, é o mais comum para a gente descalça e agoniada até ao pescoço para pagar as contas do dia-a-dia. Mas também é verdade que eu não sei como é que se vê tanta gente pastada no café a comer e a beber. Há dinheiro para isso tudo? Meu pai dizia às vezes “Já estou a ficar nas lonas, é preciso pôr travão!”, e repetia vezes sem quantia, referindo-se à rapaziada da oficina: “Aqueles sujeitos vão para as tascas beber cafés e chega-se a meio do mês já andam a meter vales para aguentarem a vida.” Nesse tempo, era possível “meter vales”, que significava se dirigirem ao tesoureiro do escritório do Leacock e pedir emprestado dinheiro, para descontar no fim do mês! Que desgraça! E que desgraça agora com esta carestia de vida!
Bem, aquela gente nos anos 40 do século XX, só não morreu para galgar um quarto de casa, que assim não calhou. Foi o que aconteceu com meu pai. Ficou doente de tanto acartar material desde a venda de João da Paz pelas pedras fora. De tal maneira que não é tarde nem é cedo, alugou um burro para fazer as suas vezes. Só que o burro não era tolo! Chegava ao pé da casa da senhora Virgínia das Lopes e fincava as patas no chão e nem para a frente nem para trás. O próprio dono do burro fazia uma fogueirita debaixo do animal para obrigá-lo a seguir caminho, e ele próprio ganhar o seu sem vergonhas! Moita! O burro afastava-se manhoso, jogava coices à esquerda e à direita, mas subir as pedras não era com ele. E era cansativo fazê-lo entender tanta coisa que não era da sua responsabilidade. Eram os homens a empurrá-lo, a dar-lhe vergastadas e nada! Eu não sei o que faria!
A tia Elvira há sessenta anos não teve burro contratado. Falava com os pequenos e dizia: “Amigos, vocês que vão buscar um bloquinho à senhora Elvira, que a senhora Elvira vai dar uma pataquinha a vocês. E vou matar uma galinha para fazer um comerinho a vocês.” Só que os pequenos não eram burros e volta e meia estavam entramelados: um tinha esfolado um joelho; outro tinha um jajão numa mão, outro tinha uma dor no carrolo, outro tinha dado uma topada e arrancado uma unha do dedo grande. De modo que a triste de minha tia Elvira tinha de dar mercúrio no esfolado, tintura preta no jajão, massagem no carrolo, e baixa ao da unha. Lá assim não! Mais valia não os ter contratado! “Ah amigos, só mais um caminhinho” – dizia a desafortunada – pedindo clemência e compaixão a quem não percebia nada das suas dores.
Estou em mim que as casas falam, guardam histórias, escondem gritos e tormentas, brilham ao sol ou choram memórias. Elas existem em nós como seres, embora imateriais, mas seres, coisas nascidas dos nossos sonhos e das nossas mãos. A elas dedicamos uma vida, amamo-las exageradamente, como se ama uma pessoa. “A minha casinha!” “O meu cantinho!” – diz-se. Só entram na nossa casa, salvo as devidas exceções, os nossos amigos e a nossa família, tão valiosa a nossa casa é. Quem não quer ter o seu cantinho e deixá-lo depois aos filhos, aos netos e assim infinitamente, como um prolongamento do “eu”?
Triste é quando o destino troca as voltas e as casas se perdem. Quando a via-rápida passou em São Gonçalo, o professor L.F perdeu a sua casa, com os seus jardinzinhos e os seus pomares. E era vê-lo quase a chorar em nome do progresso. A sua casinha ia morrer! Que desgosto! Ninguém percebia tamanha tristeza do seu coração, porque só ele sabia o amor e o tempo dedicados àquele sonho!
É verdade que ninguém sabe para quê nem para quem trabalha!