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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

12/02/2023 08:00

Nunca percebi como era que isso se fazia. Daí, minha mãe dizer "Esta pequena não tem ronha nenhuma!" E eu ficava desconsolada com aquela sentença para a vida, vinda de minha mãe e às vezes da tia Elvira, que era também, para mim, igual a minha mãe. E é verdade! Morro de velha e não aprendo! Quem me manda ser tonta? Sempre me atrapalhei para dar a resposta certa na hora certa; tomar a decisão acertada na oportunidade mais esperada! Pois! Até pareço "O Bertoldinho" das histórias da prima Justina das Eiras, que fazia tudo ao contrário, cheio de inocências e de ingenuidades, pensando estar a realizar a mais útil e nobre das tarefas. A mãe mandava fazer um recado e o pobre do triste do Bertoldinho ia todo contente e destrambelhava tudo! Coitado! Mas se eu sou assim, como o Bertoldinho, hei de ter a minha lógia e a minha graça! Deus Nosso Senhor há de ter um propósito! Que os ronhas vão vivendo que eu também vou vivendo e não corro para ser ronha! Pois que assim seja!

Tive um tio que era um ronha! Quem me contava histórias dele era meu pai! Já ambos morreram, por isso julgo, sem ofensa, que não há aqui mal nenhum em falar deles, para que eles, através das minhas histórias, continuem vivos! Esse meu tio tinha sempre vinho seco em casa e um baralho de cartas para se sentar à mesa com os amigos, encetar despiques e xarambas até às tantas da noite! A sua casa, plantada no alto da colina, sempre cheia de sol, era um chamariz para os pequenos nadas da vida, que são os mais importantes e valioso, a amizade! Minha tia, a mulher da casa, e os filhos, nunca mostraram má cara por receberem ali aqueles amigos que riam e cantavam e traziam grande alegria! Há lá coisa mais linda do que esta?! Num dos despiques, meu tio pediu a um amigo para ser padrinho de um filho acabadinho de nascer! Mas que ronha! Quando estava cansado dos amigos e da folia dentro da cozinha da casa, em vez de os pôr pela porta fora, dizia "Já que vocês querem se ir embora, eu vou dormir, que amanhã é dia de trabalho!" Olha o ronha! Outra situação foi que nesse antigamente não havia luz elétrica nem nas casas, nem nos caminhos, nem nas veredas e nas noites de breu sem lua, era ir pelo tino até chegar a casa. Numa dessas noites, meu tio, ou porque viesse meio quente ou porque viesse meio distraído, trompicou das pernas e foi com a mão ao chão. Recomposto, sentiu que a mão estava muito macia e que enjoava que tresandava. Merda! Ronha, como era, pensou "Não levo isto para casa! Vai ser para o primeiro que aparecer!" E foi! Pouco depois, pressentiu os passos habituais de um noivo que tinha vindo visitar a rapariga e que regressava a casa àquela hora. Iam-se cruzar! Ele a subir a ladeira, o outro a descer! "Boa noite! Deus Nosso Senhor que nos acompanhe!" Deram-se a mãozada besuntada de merda, da de gente que engulha mais do que a de cachorro! Olha o ronha, que seguiu caminho direitinho sem se vergar! Olha o outro, que desceu a ladeira engolindo o atrevimento do cumprimento!

E a história das salas do futuro cheias de computadores e dos livros digitais? Qualquer dia, os nossos jovens não precisam de juntar o polegar ao indicador para pegar num lápis, a nossa grande descoberta que nos distingue dos outros animais! E a criatividade para onde vai? Há algum ronha no meio disto tudo? Eu não sei!

É que os ronhas têm valor, mas os outros também têm!

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