A loiça de casa sempre foi mais do que um simples objeto utilitário; era memória, pertença, herança. Os pratos de faiança, simples, decorados com ramo de flores ou flores, mantinham uma beleza que o tempo não apagava. Não se trocavam pratos só porque envelheciam, nem ao sabor das modas. E, quando ganhavam um lascado, desde que ainda servissem, continuavam a fazer parte da mesa. Até mesmo quando se partiam ainda se tentava uma solução com pontos de arame.
As chávenas também iam perdendo pedaços nas bordas, ficavam com lascas ou sem asas, mas continuavam a servir café ou chá, com a mesma importância de sempre.
Os talheres, como a loiça, dividiam-se entre os do dia-a-dia e as outras para momentos mais especiais. No quotidiano, usávamos pratos comuns. As loiças de esmalte apareceram mais tarde, eram robustas e duravam. Mas, nos tempos da minha infância, predominavam os pratos de faiança. Na mesa, cada um adaptava-se ao que havia. A colher, por vezes, resolvia a refeição toda — desde a sopa até ao resto. Garfo e faca já eram considerados uma coisa fina.
Não era preciso haver luxo para haver apetite. Havia sempre algo quente a sair do fogão ou do lar e a loiça dos dias especiais era então usada. As porcelanas da Vista Alegre Portugal, da Fábrica de loiça de Sacavém ou Porcelanas Portugal SPAL apareciam nessas alturas. Não eram usadas todos os dias, ficavam guardadas no louceiro ou num armário, como se estivessem à espera do momento certo. Quem as tinha, estimava-as como um tesouro. Eram herdadas, oferecidas no casamento, traziam história.
As porcelanas da Vista Alegre Portugal, as faianças da Fábrica de Sacavém e da Portugal SPAL, eram particularmente valorizadas. As peças de requinte da Vista Alegre Portugal, por exemplo, tinham muitas vezes uma marca numérica gravada por baixo, acompanhada do ano de fabrico, e esse detalhe estava presente tanto nos serviços de chá e café, como nos pratos e outros utensílios. Havia pratos com raminhos cor-de-rosa, verdes, azuis, outros com flores, com fio de ouro e de outras cores, que davam à mesa um certo brilho nos jantares mais importantes. Para além dos pratos, havia saladeiras, molheiras, terrinas, manteigueiras, azeitoneiras, e travessas grandes que ajudavam a distribuir a comida, quando a família se juntava.
O serviço de chá e o de café também tinha o seu lugar. As chávenas, com pires, não eram como as de hoje. Eram ligeiramente maiores, sem exageros. O café fazia-se no fogão, num fervedor antigo, e coava-se com paciência. Havia sempre um bule para o café e outro para o leite. Nada de máquinas ou cápsulas.
Os copinhos de licor, minúsculos e elegantes, também faziam parte dos momentos de convívio. Uns com pé, outros sem pé, alguns pintados com flores em relevo, outros lisos de várias cores. A acompanhar, as garrafinhas de vidro com rolha lapidada. Eram usados com parcimónia, reservados para ocasiões especiais.
Quando algum prato ou chávena se partia, não era motivo de drama. Levava-se ao amola-tesouras, que com arte e quase magia unia os cacos com grampos metálicos. Ficavam marcados, sim, mas continuavam a servir. Continuavam a contar a sua história.
Hoje, tudo mudou. Parte-se, compra-se novo. O apego, neste caso mais por necessidade perdeu-se.
Mas ainda há quem guarde os serviços antigos como relíquias de família. Conjuntos inteiros, bem cuidados, protegidos nos louceiros. Peças que não se vendem nem se trocam. Peças com memória.
E há sítios onde o passado se deixa ver. Mercearias restauradas, onde antes havia sacos de grão e latas de conserva, agora mostram chávenas, pratos e terrinas com padrões familiares. Umas são imitações, outras, peças soltas que parecem mesmo ter vindo das mesas da nossa infância.