Os preços referenciais, em dólares, de alguns produtos alimentares, entre eles a carne de bovino, estão a baixar consideravelmente na Venezuela, criando boas expetativas de estabilização em comerciantes luso-venezuelanos e clientes.
A perceção geral da população é de que o mercado local, que depende em grande parte das importações, está a estabilizar-se porque o valor não oficial do dólar está a baixar, após a volatilidade registada em janeiro e apesar de a inflação continuar elevada.
“O dólar Binance [criptomoeda USDT ou Tether] que é usado como referência para as importações está agora em pouco mais de 500 bolívares, quando em janeiro, após a operação militar dos EUA que levou à captura de Nicolás Maduro chegou a custar mais de 900 bolívares, e isso está a refletir-se nos preços”, explicou um comerciante à agência Lusa.
Proprietário de um supermercado em Caracas, José António Freitas exemplificou que a carne de bovino de primeira qualidade chegou a estar a valores próximos dos 19 dólares (16 euros) por quilograma, um valor muito alto, tendo em conta os baixos salários locais, e que agora está pelos 8,90 dólares (7,55 euros) o quilograma.
“A consequência dos altos preços foi uma queda nas vendas numa percentagem que ainda não está estabelecida, mas percebe-se que em fevereiro as vendas melhoraram, que as pessoas estão a retomar as tendências tradicionais nas compras”, disse.
Sobre a descida da cotação do dólar USDT apontou que pode dever-se a fatores conjunturais, como uma menor procura, porque há a perceção de que a economia vai melhorar, de que estariam a entrar mais receitas da exportação do petróleo e que as autoridades estariam a intervir nesse mercado, mesmo sem o controlar oficialmente.
A descida dos preços referencias em dólares dos produtos, segundo vários comerciantes portugueses, está também a registar-se em várias cidades do interior do país.
“Neste momento a situação está estável. Alguns preços [em dólares] já estão abaixo dos valores que estavam anteriormente. O que aconteceu em 3 de janeiro [operação militar norte-americana] provocou um aumento, devido à insegurança, e as pessoas não sabiam o que iria acontecer no país”, disse outro comerciante, José Martinho Pestana.
Proprietário da uma cadeia de supermercados na cidade de Barquisimeto, estado de Lara, 370 quilómetros a oeste de Caracas, este empresário madeirense acredita que essa volatilidade está superada.
“Isso já está ultrapassado e inclusive há muitos mais dólares no mercado. O Estado está a entregar mais dólares e o dólar está a um preço com o qual já se pode trabalhar melhor porque baixou muito”, disse.
O comerciante explicou que muitos produtos que se vendem localmente são de origem estrangeira e quando acontecem situações que produzem tensão ou oscilações em alta no mercado, tendem a subir de preço.
“Mas a situação agora está mais estável, mais competitiva. Os preços têm baixado beneficiando as pessoas e fazendo com que possam comprar a sua comida diariamente e ter uma melhor alimentação”, considerou.
Admitindo que continuam a existir “muitos desafios, por várias situações” para os empresários portugueses, José Martinho Pestana explicou que a tendência do mercado local é a de ser “mais aberto, mais competitivo”.
“Nós, [os portugueses] confiamos no país mesmo nos momentos mais difíceis. Acreditamos que a Venezuela é um país para apostar, com perspetivas de crescimento muito importantes e com um retorno dos investimentos muito bom”, disse.