O funeral do primo Alfredo

Aqui há uns anos levei uma das minhas tias e uma prima dela ao cemitério de São Gonçalo para assistirem ao funeral do primo Alfredo, de quem ambas diziam ter sido um dos indivíduos mais rápidos e apressados da família, mas de quem eu nunca antes tinha ouvido falar, apesar de o homem ter vivido 85 anos.

(Já abordei assunto numa crónica antiga, mas hoje vou contar mais em pormenor, porque a rapidez e a pressa do falecido em vida fez-me pensar muito na pressa e na rapidez da vida.)

O primo Alfredo estava internado na Casa de Saúde de São João de Deus, mas não é que estivesse maluco. Pelo dizer da minha tia e da prima dela, ele não estava maluco. Estava lá não se sabe bem porquê e não dava conta de nada. Não falava, não via, mal se mexia e se calhar nem sequer pensava. Era o que elas diziam. Depois, morreu.

Pelo caminho, a minha tia disse que se soubesse que ele estava internado lá em cima teria ido visitá-lo e a prima abanou a cabeça que sim e disse que teria feito o mesmo se também soubesse disso. Mas, de facto, nem uma nem outra sabiam que o primo Alfredo estava internado lá em cima.

– Se a gente soubesse tinha ido vê-lo – concluíram em simultâneo.

Um dia antes do enterro, porém, a minha tia estava a tomar café com uma vizinha no bar à beira da estrada e ambas viram descer o ‘carro dos mortos’, vindo da Casa de Saúde de São João de Deus. Olharam para a viatura com os olhos a brilhar.

– Quem terá morrido? – Disse minha tia.

– Amanhã vamos ver no jornal – respondeu a vizinha.

Pois calhou ter sido o primo Alfredo.

E lá fomos nós para o cemitério de São Gonçalo no carro do meu tio, eu a conduzir e elas a conversar. Às tantas, minha tia pôs-se a contar que naquele tempo o primo Alfredo costumava atravessar o terreiro lá de casa, à tardinha, para encurtar caminho através da fazenda, mas passava muito rápido e depressa, sempre muito rápido e depressa, mesmo muito rápido e depressa, e de todas as vezes virava-se para a minha avó, que era tia dele, e dizia:

– Sua bênção, tia. Já vou.

Era isto que dizia o primo Alfredo.

E passava tão rápido e depressa que as primas mal tinham tempo de lhe pôr a vista em cima.

Em São Gonçalo estava a chover, mas o primo Alfredo encontrava-se bem resguardado dentro da capela e melhor ainda dentro do caixão. A minha tia e a prima dela foram de guarda-chuva erguido pelo cemitério afora até perto do caixão. O caixão estava aberto e as duas puderam assim descansar a vista em cima do esquivo e fugidio primo, aquele que costumava passar pelo terreiro sempre muito rápido e depressa, à tardinha, e todas as vezes dizia a mesma coisa:

– Sua bênção tia. Já vou.

Era como uma rajada de vento ou um sussurro que se ouve num sonho, mas naquele dia a minha tia ficou surpreendida com o aspeto limpo, saudável e aprumado do primo Alfredo, ali dentro do caixão, e até lhe pareceu que estava melhor do que antigamente, quando era rapaz novo e passava pelas pessoas como a sombra duma flecha.

Mais tarde, já em casa, a minha tia pôs-se a falar ao telefone não sei com quem e disse que mal reconhecera o primo Alfredo, estendido entre tábuas envernizadas e reluzentes, com os lábios encarnados e a pele lisa, lisa, lisa sem uma única ruga.

– Se tu visses não ias acreditar! – Dizia a minha tia, falando não sei com quem.

E percebia-se que, do outro lado, alguém tinha ficado incomodado por não ter ido ao funeral do primo Alfredo, mais não fosse para o contemplar assim tão bonito e bem arranjado e – coisa rara – tão quieto e parado.