Fernão de Magalhães e o quinto centenário das Filipinas

O cristianismo chegou às Filipinas há 500 anos, numa nave do rei de Espanha, conduzida pelo português Fernão de Magalhães, para dar a volta ao mundo. O cronista da expedição, António Pigaferta, ao chegar às Filipinas, deixou a discrição do comandante católico português que, vendo “o fértil solo da boa vontade dos indigentes, tornou-se “missionário”, para depois tornar-se “mercenário”, tendo satisfeito os pedidos dos nativos”. Esta narração foi depois tornada mais espiritual, dizendo que o evangelho foi levado por “seres humanos imperfeitos, ou segundo o evangelho em “vasos de barro”.

A celebração, devido ao covid-19, não foi celebrada no ano de 2021, mas este ano em abril, embora o Papa Francisco a tivesse comemorada no Vaticano, na própria data, dirigindo-se aos católicos filipinos de todo o mundo, disse: “E esta alegria do evangelho se vê no vosso povo, se vê nos vossos olhos, nas vossas faces, nos vossos cânticos e nas vossas orações.... Quero dizer-vos obrigado pela alegria que levais ao mundo inteiro e às comunidades cristãs.”

O presidente do governo, Rodrigo Duterte, grande crítico da Igreja católica, sem referir-se ao cristianismo, tratou da vitória dos nativos sobre as forças da Espanha, pedindo ao povo para apreciar a sua rica História e aprender daqueles que vieram antes de nós de forma a não permitir mais “a nenhum outro povo de insidiar a nossa soberania”. O movimento ecuménico, exprimiu a Deus a gratidão pelo grande dom da fé cristã, o reconhecimento por haver contribuído pelos sofrimentos dos povos indígenas e o empenhamento comum para com os mais marginalizados da sociedade filipina. “Estamos agradecidos a Deus pelos inumeráveis homens e mulheres que ofereceram as suas vidas para cumprir esta tarefa missionária”.

Reconheceram também, que o cristianismo chegou ali juntamente com o colonialismo vindo da Espanha e dos Estados Unidos da América e que provocou violências e sofrimentos à população e abusos cometidos contra os povos indígenas, o que, por vezes, aconteceu com algumas atividades missionárias.

Jesus, ao falar em parábolas aos apóstolos, mostra como dentro do bom trigo o inimigo semeou a cizãnia, e assim continuará até ao fim dos tempos. O Papa Francisco e, antes dele, São Paulo VI e São João Paulo II visitaram estas comunidades, pedindo a Deus perdão por estes defeitos graves de homens e mulheres da Igreja, ao mesmo tempo louvando a generosidade e os sacrifícios dos santos e muitos missionários.

O mesmo aconteceu no Brasil, tendo o Padre António Vieira mostrado, como Santo António no sermão aos peixes, afirma que os grandes comem os mais pequenos.

Apesar de tudo isto, que nos revolta, em nossos tempos, ainda nem tudo está purificado, a história da Igreja é construída por homens e mulheres, santos e pecadores, sem mancha e sem ruga só Jesus Cristo e Sua Mãe.

Seguindo as tradições do espírito ecuménico das Filipinas, afirmaram: “Vamo-nos empenhar a construir a paz e a proteger a nossa soberania, a combater o consumismo e a mudança climática, a perseguir todas estas iniciativas comuns como expressão de fé nas nossas respetivas tradições e no espírito do ecumenismo”.

O dom da fé e o espírito desta herança incarnada no cristianismo filipino, torna-se visível nos símbolos cristãos, igrejas e capelas, santuários, que são lugares de peregrinações, altares nos campos de trabalho, imagens religiosas nas casas e nas estradas. Os calendários apresentam as festas religiosas da Páscoa e Natal, as festas do Nazareno negro, do Santo Menino Jesus e do santo padroeiro. O que se revelou decisivo no crescimento religioso filipino, foi o uso das línguas nativas para a evangelização. Os missionários católicos evangelizaram as populações nas línguas locais mais do que em espanhol, produziram textos cristãos locais nas línguas próprias destinadas a uso pessoal ou comunitário, para novenas, catecismos e vidas de santos.

Com a difusão das missões protestantes dos americanos, nos inícios de 1900, traduziram o Novo Testamento nas línguas locais. Com o período colonial americano aumentou o número de cristãos instruídos na língua inglesa, mas a sensibilidade religiosa permaneceu radicada no contexto local. Na atualidade, os leigos católicos e protestantes organizam missões no estrangeiro, os evangélicos e carismáticos organizam reuniões em diversas nacionalidades, difundem o rosário e a Bíblia, as missas das novenas de Natal que, na Madeira chamamos missas do parto da Virgem Santa Maria, procissões marianas locais, sendo eles chamados os “novos missionários”. Por ocasião do covid-19, organizaram o culto online, serviços regulares paroquiais, ajudaram as comunidades no estrangeiro, organizaram benfeitores voluntários e destinatários, foram peritos em serviços sociais, criaram uma amizade social e, estão espalhados no mundo muçulmano, de tal forma que, o catolicismo cresceu nos países ricos do golfo pérsico. Segundo o Papa Francisco em “Fratelli tutti”, o amor difunde-se para além das fronteiras.”

No quinto centenário da chegada do cristianismo, os filipinos têm motivos para se alegrarem pelo dom da fé incarnada num património vivo, tanto na vida pessoal e comunitária, como nos ministérios pastorais, educativos e sociais, tudo isto se reflete numa música alegre, nas faces sorridentes, embora devam afrontar sempre novos desafios. O culto online continua a alimentar a fé e a aumentá-la, a colaborar com todos aqueles que operam para o bem comum. Fernão de Magalhães morreu atingido por uma seta envenenada numa ilha das Filipinas.

Alegra-te, junto de Deus, Fernão de Magalhães, Valeu a pena? recorda-te do poeta do Mar Salgado, Fenando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Oh! mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal... quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o Céu!”