O problema da felicidade

Nasci, fui criado e vivo numa ilha-paraíso onde a felicidade é um problema por causa da invejidade e do mau-olhado. Uma pessoa feliz acaba sempre por se lixar bem lixada por causa disso, não há volta a dar. Pode ser uma coisa pontual, passageira, patética, mas também pode ser definitiva, trágica e sombria. Seja como for, mais cedo ou mais tarde, qualquer pessoa lixa-se bem lixada à conta do camadão que lhe deitam em cima e os responsáveis são os mesmos que depois lhe batem nas costas e dizem:

– Então, tudo bem contigo?!

Falinhas mansas e boas intenções, estão a ver a cena? Amigo para aqui, amigo para ali, só quero o teu bem, digo isto para te ajudar, tudo de bom para ti, desejo-te o melhor do mundo e por aí adiante no caminho da bondade.

Quando a vítima percebe a situação, abana a cabeça que sim, para não parecer pessoa mal-educada, claro, mas em pensamento, apenas em pensamento, responde assim:

– Vai para a puta que te pariu!

É o melhor que há para dizer.

Já quando o desgraçado não percebe o alcance de tamanha magnanimidade, coitado, acabará por se lixar bem lixado. É uma questão de tempo. E o tempo, meus amigos, serve de igual modo os supersticiosos e os cientistas, os poetas e os pragmáticos, os crentes e os ateus, os burros e os inteligentes, os ricos e os pobres, os finos e os brutamontes. Aqui, na ilha-paraíso, toda a gente leva com mau-olhado em cima! Ninguém escapa, graças a Deus! E ninguém duvida disso!

A propósito, lembrei-me de repente dum ensinamento que recebi de um velho em África, quando andei a vagabundear na Alta Zambézia. Ele disse-me assim:

– Qualquer coisa serve para afiar a maldade do ser humano e é por isso que a maldade não tem fim no ser humano.

Visto de um determinado ângulo, precisamente o mais amplo e luminoso, aquilo que estou a escrever agora é também uma forma de aguçar a minha maldade e atirar montes de mau-olhado e invejidade sobre os outros. O objetivo é usar o mal como proteção, tipo vacina. Só isso.

De modo que o segredo consiste em evitar ao máximo a exposição pública da felicidade. Foi o que nos ensinaram desde pequenos. É o que nós ensinamos aos pequenos. Daí a utilização corriqueira de expressões como “mais ou menos”, “assim-assim”, “vai-se andando” e de diminutivos como “porreirinho”, “bonzinho”, “bonitinho”. A felicidade tem a mesma cotação do ouro e o ouro gera sempre cobiça, sobretudo quando se encontra no seu estado imaterial. Ninguém precisa de saber quanto possuímos.

Já agora convém sublinhar que a felicidade nas redes sociais não tem o mesmo valor, é demasiado aparatosa e, regra geral, não corresponde à realidade objetiva e muito menos à verdade do ser. Ali só o ódio é autêntico. O resto é fantasia, delírio, matéria oca e inócua sobre a qual a invejidade e o mau-olhado não exercem o seu poder corrosivo, pelo que a exposição pública das alegrias não acarreta perigo para os utilizadores.

Para terminar, vou contar um sonho que tive há anos sobre a felicidade. Sonhei que estava no fundo duma caverna embrulhado numa manta e vi surgir uma luz muito intensa no meio do nada e a luz aproximou-se de mim, iluminou tudo ao meu redor e tudo se tornou branco, incluindo a manta que me cobria e o meu corpo também. Branco. Ou melhor, lucífero. Tudo se tornou lucífero e eu senti-me feliz – simplesmente feliz. Depois, pouco a pouco, a luz foi-se extinguindo e tudo ficou escuro outra vez e foi então que eu acordei. Abri os olhos e percebi que ainda faltava muito para amanhecer e fiquei na cama a pensar no sonho, mas quando me levantei dei-me conta de que afinal tinha estado era a pensar na roupa que ia usar nesse dia.

Post Scriptum, só para o caso: “Eu te curo de olhado invejante, se te deram no comer, no beber, na gordura, na formosura, no andar e no trabalhar…”.