Salva o dia, salva-te!

Deixa-me lá ver o que acontece hoje, pensei. Era 08:45 e eu tinha grandes esperanças. Tenho sempre grandes esperanças desde que tomei consciência de mim, embora não saiba com que idade isso aconteceu. Foi talvez há cinquenta anos, lá em cima, no Laranjal, motivado por alguma coisa que vi, ou fiz, ou ouvi a minha mãe dizer. Sim, sim, terá sido algures por aí que a noção da existência entrou em mim e o seu peso bruto começou a vergar-me. Seja como for, tenho sempre grandes esperanças. Hoje também.

A Pat deu-me um beijo e disse:

– Continuo apaixonada por ti.

E seguiu viagem para o trabalho.

Eu pensei: Ah, excelente forma de começar o dia! E acrescentei: Mesmo que o resto se repita sem encanto, esta é, de facto, uma forma maravilhosa de começar o dia. O amor é sempre uma novidade. É como a verdade. Se for autêntico, surpreende constantemente e nunca nos engana, mas às vezes, muitas vezes, faz sofrer, faz sofrer muito.

Três horas depois o meu dia estava como todos os outros e assim seria até ao fim – um dia sem história, mais um dia sem história. Por um lado, as coisas pessoais. Por exemplo, ir às zonas altas vigiar a casa, tratar das galinhas, brincar com o Tonecas. Depois, visitar a tia velha e demente. Ela a dizer:

– Quem és tu, diabo? Não te conheço.

– Sou o Duarte, o seu sobrinho.

E ela, com o seu ar mau e altamente alucinado:

– Esse, nunca mais o vi! Nunca mais apareceu aqui!

– Ah senhora, sou eu!

E ela:

– Filho de quem?

– Filho da sua irmã Celina e do Gabriel.

Ela encolhe os ombros – um gesto que abarca a ruína de tudo, do tempo, do lugar, do mundo inteiro – e diz:

– Não sei quem é essa gente.

Saio de lá desfeito e depois tenho outras coisas para fazer. A atividade profissional, pois claro. Já dizia o meu pai: Com o trabalho não se brinca! Por exemplo, uma manhã inteira no parlamento a ouvir o pessoal dos partidos a mandar vir uns com os outros, assim mesmo, todos a mandar vir uns com os outros em nome do bem-estar do povo, sempre em nome do bem-estar do povo, valha-nos Deus. E a seguir há conferências, apresentações, visitas, telefonemas, escreve isto, escreve aquilo, grava daqui, desgrava dali, para cima e para baixo, para cá e para lá, dia após dia após dia, e também há horas vazias, aquelas horas mortas nas quais o infinito se condensa e consome.

No fundo, é um trabalho abençoado, a verdade seja dita, mas um gajo fica a morrer por férias. Meu Deus, um gajo fica mesmo a morrer por férias!

O dia apresenta também maldições que vão chegando com a idade e quebram o vigor e a resistência. Um tipo bebe um copo de vinho a mais ao jantar e fica arrasado – não estou a falar de bebedeiras, apenas um copo a mais – vai daí dorme mal, acorda como se tivesse levado um enxerto de porrada, anda como um zombie, tem dificuldade em concentrar-se. Para agravar a situação, a vista está cada vez pior, não vejo nada ao perto e tenho uma impressão constante no olho esquerdo. Dor aqui, dor ali. Mas que merda vem a ser isto?! É preciso ir ao médico, fazer exames, avaliar o corpo por dentro e por fora, aferir e rever o seu prazo de validade, tentar adiar o sofrimento da doença e a angústia da morte. Já o outro dizia, é preciso não esquecer: O futuro é incerto e o fim está sempre perto.

De resto, o segredo para salvar o dia é o mesmo de sempre e é tão antigo como a primeira vez em que o Homem olhou para o céu e pensou nas estrelas. Basta agarrar numa coisa qualquer, mesmo sem importância, seja lá o que for, e decidir que a vida não teria valor nem sentido se não fosse por ela, por essa coisa de nada.

Enfim… Depois disto tudo, às 00:45, antes de fechar os olhos e adormecer cheio de grandes esperanças, virei-me para a Pat e disse:

– Amo-te como no primeiro dia.