Vivemos rodeados de beleza

Ao raiar do dia, sentindo-se bastante esgotado e estando todo coberto de pó, ferrugem e cinza, sentou-se em cima dos escombros para descansar um pouco e disse em voz alta que uma pessoa nunca sabe para o que está na vida. Foi a primeira vez que expressou este pensamento e a partir de então haveria de o verbalizar milhares de vezes ao correr dos anos.

– Uma pessoa nunca sabe para o que está na vida.

Dizia-o sempre com ar sofrido, independentemente de a circunstância ser boa ou má, como um penitente ou talvez como um moribundo, como alguém que recita uma oração antes de exalar o último suspiro:

– Uma pessoa nunca sabe para o que está na vida.

O homem que se encontrava com ele, sentado ao seu lado em cima dos destroços, encolheu os ombros e a seguir pôs uma garrafa de água à boca e bebeu cerca de metade. Depois, deu-lhe a garrafa e ele bebeu o resto. No fim, repetiu a frase, cuspiu para o lado e atirou a garrafa em frente, ela bateu numa pedra e partiu-se. Nesse preciso momento, uma rapariga atravessou a rua ao fundo e cativou o olhar dos dois homens, como uma faísca de luz na escuridão dos seus corações.

(…)

Sabem, meus amigos, ando com esta história na cabeça há muitos anos, mas não consigo passar daqui. Não consigo mesmo. Acho que foi um sonho que tive na infância, quando ainda não sabia escrever, por isso perdi-a para sempre – não sou escritor. Não sei quem são aqueles dois tipos, nem o que andam a fazer na cidade destruída, não sei o que terá provocado a destruição da cidade, se foi uma guerra ou um terramoto ou a fúria de Deus, não sei quem é a rapariga, nem o que lhe vai acontecer no seu percurso através das ruínas, não sei se os homens são bons ou maus, não sei se lhe vão fazer bem ou mal ou nada. Não sei. Não sei mesmo.

Uma pessoa nunca sabe para o que está na vida.

Há dias pus-me outra vez a matutar no assunto, sentado numa esplanada na praia, o mar todo à frente, o céu limpo e o ar sossegado, quase na hora do pôr-do-sol, a beber um copo de vinho e depois outro, longe do calhau dos horrores, longe do ruído dos amores. O panorama era lindo de morrer e assaltou-me uma coisa que ouvi dizer não sei quando, não sei onde, assim:

A paisagem mais bonita para um ser humano é outro ser humano.

Eu penso sempre nisto quando me deparo com vistas avassaladoras, seja lá onde for, no céu ou na terra ou no fundo do mar, no inferno ou no paraíso, aqui, além ou no fim do mundo. Nada é tão belo como o outro ser humano e sem ele o lugar onde estamos torna-se vazio como a solidão do indivíduo na hora da morte.

Vou dar um exemplo: uma livraria. Para mim, é uma das paisagens mais fascinantes e misteriosas, mas quando entro e não está ninguém, a sua beleza esmaga-me, afunda-me, provoca-me vertigens. Por outro lado, quando vejo uma pessoa à volta dos livros, o seu encanto completa-se e liberta-me. Se for uma mulher, então, a livraria torna-se sublime.

Digo-vos, uma mulher a rondar livros, absorta, em silêncio, esquecida de si, perdida na divagação do ser, é de uma beleza deslumbrante e profunda, tão fina e luminosa, mesmo quando ela é feia ou velha ou bruta, mesmo quando a livraria se assemelha a um aterro da memória e do saber e eu pareço aquele personagem todo coberto de cinza, ferrugem e pó, sentado em cima dos escombros, perdido nos abismos do tempo, incapaz de conhecer o fim da história, a dizer desconsolado que uma pessoa nunca sabe para o que está na vida, mesmo assim ela é a paisagem mais bonita, ela é a rapariga que atravessa a rua na cidade em ruínas do meu sonho.