Diz que me amas!

É o conselho que a Pat me dá, quando me ponho a cramar, a dizer que já não tenho mais nada para escrever, que estou farto de tanta crónica, de tanto texto, de tanta palavra – ninguém lê esta porcaria, isto não serve para nada – já contei tudo o que tinha para contar, a minha vida, o meu pensamento, o meu sentir, todas as minhas emoções escarrapachadas em letra de imprensa e o diário da minha guerra civil também – eu contra eu a destruir tudo em mim – de modo que agora estou vazio, em silêncio, vergado perante o esplendor da humanidade, derreado face ao seu horror, estou como um tonto a falar em público ou como um burro a olhar para um palácio ou como um jovenzinho virgem a espreitar pelo buraco da fechadura uma mulher linda que se despe e nunca será sua.

– Diz que me amas!

E eu prossigo com a lamúria:

Estou consciente de que não acendi nenhuma luz com estas historietas de semana a semana, esta literatura de cordel e meia tigela, estas reflexões sem pés nem cabeça, esta volta sempre pelo caminho mais longo e difícil, pela orla espinhosa na beira do abismo, só para evitar a multidão, para contornar o que ela diz e pensa e sente, para escapar da multidão que vai ao sabor do vento, ri e chora conforme as regras da ocasião, confunde o chão que vê com o céu que pisa, baralha o fogo do banho com a água da fogueira, mistura tudo com nada e nada com tudo, analisa com grande precisão e mesquinhez os sinais após os acontecimentos, uma grande salganhada, e depois ainda fala em voz alta – aos gritos – para se ouvir a si mesma e ao seu eco sem vergonha, puta que pariu, raios me partam, é hoje que ponho o ponto final.

– Diz que me amas!

Eu fico ainda mais furioso:

Ninguém é obrigado a ler esta porra, é obvio que o leitor está-se a marimbar para as minhas baboseiras, pouco lhe importa aquilo que digo, não se interessa com o arreio nem com o devaneio, além do mais não ganho um tostão com isto – cada palavra vale zero euros, é pura poesia – e de certa forma ainda bem, porque o dinheiro, tal como a fama, tem o mau hábito de tornar as pessoas asquerosas, acontece amiúde, há tanta gente que era boa e ficou virada do avesso por causa do dinheiro, esse diabo cuja alma merdosa habita em todo o lado, até nos recantos mais insuspeitos, sempre luminosa e palpitante, mesmo quando já não presta para nada e só nos faz pensar o pior de nós e dos outros, como loucos, como suicidas, como assassinos.

– Diz que me amas!

Eu expludo:

Vou é maldizer tudo e mais alguma coisa, ainda por cima em mau português, tudo mal escrito, às três pancadas, com a gramática amarfanhada e a pontuação espezinhada, exatamente como faz o analfabeto armado em chico-esperto-escritor, quero lá saber, além do mais toda a gente tem dias assim, dias em que chove sem fim, dias de medo e pavor e terror, e a seguir ocorrem desastres, derrocadas, enxurradas, aluviões, acidentes, mortes, uma guerra nuclear – sim, morremos todos duma só vez, graças a Deus – são dias de cara feia e roupa suja, dias de palavrão na boca, de promessa oca, honra perdida, dias sem eira nem beira nem era nem primavera, dias incompreensíveis, inexplicáveis, indecifráveis, dias de lutar contra a tirania do hoje e impor a luz do amanhã.

– Diz que me amas!

E eu, por fim, digo que sim.

É a minha salvação.

Está porreiro, este texto, não está?