Já nada é novo dentro do normal

Saudades de ter um futuro. É que daqui, deste lugar estranho que hoje ocupamos, não dá para ver muito. Há apenas uma ameaça nos dias, como se tudo agora habitasse esse medo que se acumula dentro do ar. O ar que antes não tinha dentro, apenas fora e a liberdade de circular nas ruas e a plenos pulmões.

Já nada é normal dentro do novo. Já nada é novo dentro do normal. São duas palavras que à força de se repetirem deixaram de existir, gastaram-se e apenas podem ser proferidas sem que no mundo nada realmente se concretize ou estremeça.

O que estremece está todo por dentro.  Algures no peito encolhido, recolhido, sem dilatar a respiração e sem fazer crescer esse lugar que diziam ser o centro do que se sentia e extravasava para fora. 

A proximidade é medida em distância de segurança, o espaço regulamentar entre nós e os outros para evitar a contaminação. Só que dentro de tudo isso evita-se também a contaminação do que éramos, do que nos aproximava ou afastava, do que sentíamos, do que queríamos tocar ou de como desejávamos ser tocados.

Já não sabemos como estar entre os outros. Já não sabemos bem como estender a mão e tocar além, já não sabemos bem a respiração em conjunto. Já não há a música e a pauta, nem o ar entre elas.

E há sobretudo esta tristeza de não sabermos ao certo o que restará de nós depois. Se é que haverá um depois parecido ao tanto que nos falta. Se é que haverá um depois a que regressar como quem regressa a casa, ao chão que se conhece só de o sentir na pele, que é por onde se começa a saber de cor como viver e respirar.

O que dói mais é isso: não sabermos se vamos poder regressar ou se iniciámos uma outra geografia e vamos ter de aprender uma nova coreografia de nós, dos outros e dos lugares. Aprender de novo a habitar o mundo como se ele tivesse mudado a essência. E criar espaço dentro desse mundo para ainda sermos esta coisa humana que nos desacerta sem o novo e sem a normalidade.

Porque na verdade não vivemos um novo normal, vivemos todos dentro de uma anormalidade que se instalou de forma brusca e violenta e nos deixou perdidos, sem a surpresa nova dos dias, sem a normalidade de nos sabermos em segurança e em casa. Apenas um contínuo de desespero e de uma tristeza profunda que se instala até desalojar tudo o que de nós existia.

Uma tristeza profunda que está a criar uma nova vaga de excluídos por dentro e por fora da vida. Os excluídos dos afetos, os excluídos do trabalho, os excluídos da escola, os excluídos da liberdade. Tantos à margem de qualquer coisa que o centro é agora um lugar vazio onde navegamos perdidos à beira de um não-futuro.

A grande prova de sobrevivência será sobreviver ao depois disto, seja o que depois disto for. E seja o que for, que nos mantenha no mínimo à beira de qualquer coisa ainda humana, ainda viva, ainda respirável, ainda livre.