O Papa homenageou hoje “o venerável” Antoni Gaudí, criador da “extraordinária” Sagrada Família de Barcelona, numa missa perante 8.000 pessoas em que sublinhou que os seguidores de Jesus, como foi o arquiteto catalão, “não podem promover a guerra”.
Leão XIV celebrou hoje uma missa na basílica da Sagrada Família, numa cerimónia de homenagem a Gaudí (1852-1926), coincidindo com o centenário da morte do arquiteto de vários edifícios que são símbolo de Barcelona, na Catalunha, nordeste de Espanha.
A Sagrada Família é desde este ano a igreja mais alta do mundo, como a conclusão da Torre de Jesus (a 14.ª torre concluída das 18 previstas no projeto de Gaudí), que mede 172,5 metros e que o Papa hoje abençoou.
“Não podemos acreditar em Jesus e promover a guerra. Não podemos acreditar em Jesus e matar os inocentes. Não podemos acreditar em Jesus e abandonar quem sofre, quem chora, quem foge da miséria”, disse, na homilia da missa.
“Lembremos, portanto, que a cruz de Cristo, que coroa esta basílica, é a cruz dos últimos que voltam a ser os primeiros” e “estandarte da caridade”, acrescentou, numa homilia em que alternou o castelhano com o catalão, como fez desde que chegou a Barcelona, na terça-feira.
Leão XIV pediu para os católicos mostrarem que a Sagrada Família “é a igreja mais alta do mundo não para ser destacada em classificações mundanas, mas para guiar os passos do povo de Deus” na Catalunha.
Esta cerimónia na Sagrada Família foi seguida por 8.000 pessoas convidadas pela fundação que gere a construção do templo.
Outros milhares de pessoas concentraram-se nas imediações da basílica, sobretudo no percurso que Leão XIV fez em “papamóvel” e em que foi saudado, essencialmente, com bandeiras do Vaticano e da Catalunha, incluindo a bandeira independentista da região.
Quatro associações que defendem a independência da Catalunha revelaram terem distribuído hoje nas ruas de Barcelona 5.000 bandeiras independentistas para combater “a tentativa de espanholização” da visita do Papa.
Na homilia, Leão XIV considerou que a basílica, que evoca a história de uma família (a de Jesus), e é atualmente o monumento mais visitado em todo o território espanhol (4,7 milhões de pessoas em 2025), é também “um símbolo da unidade e da concórdia para toda a Espanha”.
Estiveram na cerimónia de hoje na Sagrada Família as máximas autoridades da Catalunha e do Estado espanhol, como os Reis de Espanha, Felipe VI, e o primeiro-ministro, Pedro Sánchez.
A Torre de Jesus que hoje abençoou e inaugurou formalmente Leão XIV, “é o coração do projeto de Gaudí”, segundo a fundação da Sagrada Família. A basílica foi consagrada como templo em 2010, por Bento XVI, após a conclusão da construção da nave interior da igreja.
No entanto, a conclusão da construção da Sagrada Família, iniciada em 1882, deverá demorar ainda pelo menos uma década.
“É uma aproximação, ainda não temos um planeamento em detalhe. Quando falamos de dez anos, falamos o que neste momento podemos construir, o que está nas licenças”, explicou o arquiteto diretor das obras, Jordi Faulí, numa conversa em setembro passado em Barcelona com jornalistas de meios de comunicação internacionais, incluindo a agência Lusa.
O que neste momento tem licença para ser construído e ainda não avançou é a fachada com quatro torres que falta à basílica, a Fachada da Glória, assim como algumas capelas e sacristias. Levarão pelo menos mais dez anos a ser construídas, o que terminará a “construção em altura” da basílica, mas não significará o fim dos trabalhos porque faltarão ainda os elementos decorativos.
Por outro lado, fora da licença de obras permanece um dos elementos mais polémicos do projeto, a praça elevada e a escadaria de entrada no templo através da Fachada da Glória - concebida por Gaudí como o acesso principal - que para se concretizar obriga a demolir edifícios habitacionais e a mudanças no plano urbanístico de Barcelona.
A Sagrada Família está a ser construída há 143 anos, sempre com dinheiro das entradas de visitantes e outras doações de fiéis.
O Papa está em Espanha desde sábado e, depois de ter passado por Madrid e Barcelona, segue na quinta-feira para as ilhas Canárias, onde a agenda de dois dias está totalmente focada no fenómeno das ‘pateras’ ou ‘cayucos’, as embarcações precárias em que milhares de migrantes tentam alcançar anualmente as costas do arquipélago espanhol.