Para mim chega

Basta. Não estou para isto. Era só o que me faltava. Tenho andado a sofrer calado. A chorar às escondidas. A fingir que não é nada comigo. Mas para mim chega. A gota de água foi terem publicado e posto a circular um texto anónimo dizendo que eu sou bipolar. A sério?! Eu?! Eu mesmo?! Ou eu?!

Se escrevo e aponto o dedo ao PSD, alguns democratas ficam amuados e passam a olhar para mim de lado. Se me debruço sobre o PS e toco na ferida, uns socialistas deixam de apreciar o que escrevo e dizem que afinal nunca os enganei.

Se me queixo do trânsito, sou de Confiança. Se o empato, vou Sempre à Frente.

Se comento o (mau) momento do Marítimo, uns dizem que agora sou alvinegro. Se bato no Nacional, outros garantem que, depois da morte do União, passei a ser do maior das ilhas.

Se me meto, salvo seja, com os gays, rotulam-me de homofóbico. Se brinco com as mulheres, consideram-me um brutamontes machista que devia morrer solteiro (pois virgem já não é possível).

Se evidencio uma característica física de alguém, estou a ser bully. Se confesso que fui alvo de chacota por ser gordo, sou um ofendidinho traumatizado.

Se toco no clero e questiono os valores de certos padres, chamam-me Alá. Se assumo que acredito em Deus, crucificam-me como um pecador.

Se dou liberdade aos meus filhos, sou um mau tutor. Se imponho regras, sou um castrador autoritário e fico sinalizado pela CPCJ.

Se falo em negros, sou racista. Se acolho uma miúda com cabelo afro, não sou o pai da criança.

Se me lembro de redigir sobre a minha sogra, ela diz para eu falar da minha mãe. Se falo da minha mãe, a minha sogra diz que não lhe ligo nenhuma.

Se discorro sobre a minha vida, exponho-a demasiado. Se o faço sobre a dos outros, sou vida alheia.

Se elogio a minha mulher, é porque aprontei alguma. Se elogio a do próximo, quero aprontar.

Se me foco no que se passa no continente, no estrangeiro aqui ao lado ou no do outro lado do mundo, não sou madeirense de gema. Se só olho para o que aqui vai, sou uma mente fechada e devia abrir horizontes e ir ver o que se passa lá fora.

Se questiono decisões sobre a Covid, sou um agitador irresponsável. Se levo a 24.ª dose de reforço, não passo de uma reles cobaia.

Se verso sobre alguma especialidade médica, como por exemplo a psiquiatria, não posso porque não tenho essa formação académica específica (apesar de ser louco). Se abro a boca para discorrer sobre dentes, procuro promoção e publicidade gratuita.

Se me queixo de insegurança, estou a hiperbolizar meia dúzia de casos residuais. Se digo que há polícias a mais para passar multas e a menos para tanto ladrão, fico debaixo do olho da PSP (Deus queira que não seja aquele que estou a pensar).

Se defendo o homicida do gatuno de Santo Amaro, estou a incentivar a violência. Se tiro pelo delinquente, passo a promover o comportamento desviante.

Se reclamo dos impostos, devia ter vergonha pois sou dos que não passam dificuldade. Se fingir que não me custa pagá-los, pactuo com o “roubo”.

Se não me mostro confiante na prestação da Seleção Nacional no Catar, sou um eterno insatisfeito. Se torço pelo título mundial, sou um lunático e, quiçá, defensor do Eng. Fernando Santos e seus santinhos todos e mais alguns.

Se estou do lado do Ronaldo nesta guerra com o seu clube, estou a lamber as botas de ouro. Se o “condeno”, oiço das boas da Elma, da Kátia e de todos os que não aceitam que o estatuto ganho traz também a exigência de profissionalismo até ao fim e a obrigação de se ser exemplo. Se, se e se…

Enfim. Desisto. Já não sei mais como tentar agradar alguns leitores e outros que se ficam pelo título ou mesmo pela fotografia e formulam o seu juízo (ou falta dele). Espero que estejam satisfeitos. Ganharam. Eu retiro-me. Deixo-vos em paz. Não vos obrigo mais a ler os meus artigos de opinião. De hoje em diante só leem ou passam os olhos naquilo que bem entenderem. E se pensam que vos desejo mal, desenganem-se. Não vos guardo rancor algum. Até porque nem sei quem são. Não conheço a cara. Podem dizer que se chamam Fernandas Figueiras que eu não faço ideia quem sejam. Ginas Pintos? Tampouco. Miguéis Ornelas? Zero. Célias Mbps? Patavina. E por aí fora que a lista é longa e ainda conta com umas 20 almas ou mais…

Mas o pior é que eu não sei o que será de mim daqui para a frente. Não sei. Não faço ideia. O que será da minha vida? Só espero que o meu pai não deixe de me sustentar. Caso contrário vou ter que começar a viver à custa da minha mulher… E eu não queria nada! Palavra de honra.

Seja o que Deus quiser.

Ps, eu sei que estou de saída. Não precisam empurrar que eu vou pelos meus pés. Eu sei ir sozinho. Pode não parecer, mas sei. Só que, mesmo de partida, queria deixar uma última sugestão.

Já que o Presidente do Governo Regional diz que a Polícia Municipal é dispendiosa e, ao mesmo tempo, os profetas estão aborrecidos de não poderem matar coelhos à paulada, sugiro que se pague a passagem aos nossos bravos vizinhos e se ofereçam umas orelhas a cada marginal para serem colocadas no cimo da cabeça e um pompom peludo para o fundo das costas. Era isso e abrir a época da caça.

Pelo sim, pelo não, vou indo.

Até um dia.