“Até amanhã, camarada!”

Desta vez não me dirijo aos meus companheiros de partido. Esta é uma mensagem de despedida para Jerónimo de Sousa que, 18 anos após a ter tomado posse, deixou o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista Português (PCP).

O PCP é um partido único no panorama das democracias ocidentais, porquanto se mantém mais ou menos fiel aos princípios marxistas, que norteavam os partidos comunistas de há 70 anos. É a tal “unidade na orientação e ação”. Neste aspeto, é um anacronismo e parece estar desfasado no tempo. E se o leitor acha que exagero, tenha em atenção que no PCP pululam estalinistas. Gente que defende que há apenas uma forma de ver o mundo e mesmo uma exclusiva interpretação do marxismo, o que cria o pensamento único, gerador de totalitarismos. Conheço pessoas que assumem abertamente que a sociedade seria melhor se vivêssemos em regime de partido único (o comunista, claro!), que preconizam a nacionalização de todos os meios de produção, que defendem a captura do aparelho de estado e a sua absoluta burocratização, que entendem que as religiões devem ser combatidas até à extinção, que pretendem eliminar a propriedade privada. É certo de que não são todos, mas de certa maneira todos assumem a sobreposição do coletivo ao individual e acatam acriticamente qualquer decisão do Comité Central.

Por isso, no panorama político europeu, o PCP é uma espécie de exotismo português. Uma bizarria!

Nem o seu funcionamento, nem a sua visão do mundo, se encaixam nas democracias liberais. O PCP está sempre do lado oposto às democracias e aos próprios valores ocidentais – que, de resto, são o garante da sua existência! – conforme se viu no conflito da Ucrânia, onde nunca houve uma palavra a condenar a invasão russa, mas antes uma hostilização permanente à Ucrânia, à União Europeia, à NATO e aos Estados Unidos.

É um partido ainda solidário com regimes totalitários, como o da Coreia do Norte, que defende a autodeterminação dos povos menos daqueles que estão ou deveriam estar sob o jugo dos seus aliados – como Taiwan – que é apologista da paz mas não condena as linguagens belicistas de todos os países ou regimes que se opõem ao bloco das democracias ocidentais.

Este é o estado natural do PCP. Não é defeito, é feitio. Porque o PCP não é um partido democrático!

Disto isto, sou daqueles que entendem que, ainda assim, o PCP é essencial à democracia portuguesa. A sua visão radicalizada presta um grande serviço por ser um contrapeso a outras visões e foi permitindo – ou garantindo! - que as governações em Portugal, desde 1974, tenham sido mais ou menos ao centro. É um partido fiável, isto é, não tergiversa nas suas posições. É, no fundo, um pilar de estabilidade à esquerda política, o que é bem mais do que qualquer outro partido da esquerda ou do centro-esquerda portuguesa se pode regozijar.

Para esta estabilidade – para bem e para mal – foi essencial a liderança de Jerónimo de Sousa. Se é certo que coincidiu com o declínio da força eleitoral e a deterioração da base popular do partido, nas áreas rurais e industriais, a verdade é que Jerónimo manteve o PCP centrado nas suas causas tradicionais: as classes trabalhadoras; o aumento dos salários mínimo e médio, o combate aos monopólios económicos.

Mas se aqui o evoco, não é tanto pela sua liderança e a importância política que teve. Os seus camaradas, os politólogos e os historiadores tratarão de fazer essa avaliação. Evoco Jerónimo de Sousa porque sempre me pareceu um homem bom e um homem sério e honesto. Um homem simpático e amável, com genuíno interesse em lutar por uma sociedade melhor. Numa realidade onde abundam escândalos políticos como aqueles que têm surgido nos últimos tempos, a verdade é que é refrescante e até mesmo inspirador perceber que ainda há, na política, pessoas sérias e honestas, efetivamente e totalmente comprometidas com o bem comum (mesmo que as medidas que preconizam nos levem em sentido oposto). Gosto de homens bons, gosto de homens comprometidos com causas, gosto de homens que estão na coisa pública por devoção ao outro e por isso sempre simpatizei com Jerónimo, ainda que, na esmagadora maioria das vezes, estivesse nas antípodas do seu pensamento e da sua prática política.

Por isto, deixo aqui a minha despedida e presto a minha homenagem a Jerónimo de Sousa. Na política, fazem falta mais homens como ele: comprometidos, empenhados, justos e sérios. Para homens assim, mesmo que sejam nossos adversários políticos, na despedida, só nos pode restar uma expressão: até amanhã, camarada. Obrigado por aquilo que nos deste!