Urgência do reino e escolha mística

Como nos outros anos, a Igreja dedica esta terceira semana de Páscoa à oração pelas vocações sacerdotais. As situações  que dizem respeito à vocação  ao celibato consagrado, são muito diversas, a África e a Ásia conhecem um crescimento lento mas constante, enquanto elas diminuem no hemisfério setentrional e de uma forma quase semelhante na América Latina.

Os bispos e superiores das Ordens religiosas escrevem documentos sobre o assunto para promover o aumento ou diminuir a queda das vocações. O problema não parece ser falta de comunicação.

A humanidade entrou numa situação demográfica nova, o número de pessoas idosas

alcançou níveis  tão altos desconhecidos da espécie humana. As famílias numerosas que forneciam as vocações para a vida consagrada, diminuem o número de filhos e filhas.

O Concílio de Trento favoreceu o ministério sacerdotal, o Concílio Vaticano II evidenciou o batismo e o sacerdócio comum dos fiéis, seguindo-se uma grande crise com o abandono do ministério sacerdotal de muitos clérigos. O diaconato permanente de casados aumentou enquanto a escolha pelo celibato consagrado se apresentou como contracultural para o nosso tempo, discutindo-se muito o celibato sacerdotal.

A questão da identidade do padre tornou-se acesa na Igreja após o Concílio Vaticano II.

Como propor a figura sacerdotal de uma forma mais evangélica e menos clerical?

O anúncio do Reino de Deus só pode ser feito a exemplo de Jesus; escreveu o grande pensador Soren Kierkegaard: “a Igreja de Cristo não poderá ser a mesma sem comportar a possibilidade do celibato consagrado”, ou seja, a única coisa que poderá levar um crente a fazer esta escolha, hoje, como ontem, é fazer próprios os sentimentos interiores de Jesus, de aceitar a morte e a morte da cruz, a humilhação pessoal e social, a falta da ternura feminina e de uma descendência. É uma experiência interior de natureza mística, semelhante à de Jesus Cristo.

A pastoral das vocações deve permitir a um jovem de viver uma experiência espiritual

de natureza mística, semelhante à do próprio Jesus Cristo, tão forte e sublime que todas as outras realidades em seu confronto sejam abandonadas.

O Reino de Deus está em primeiro lugar, é Deus na sua majestade, o Absoluto, Jesus é celibatário porque chegaram os tempos do anúncio do seu Reino, como escreve São Mateus: “Há eunucos que são tornados tais pelo Reino dos Céus” (Mt.19,12), o Reino de Deus, no meio de nós é a realidade mais importante, a maior de todas, que torna tudo o resto inferior.

As vocações sacerdotais nascerão naquelas famílias que são comunidades crentes, onde a fé e o serviço a Deus se tornaram o valor principal. O celibato na igreja, hoje, não deve provir, antes de tudo, de uma lógica sociológica ou tradicionalista para manter uma contracultura, mas de uma fé viva e amadurecida, por experiências interiores fortes pelo Reino de Deus entre nós, trata-se enfim, de uma questão espiritual mística, as vocações consagradas, não são antes de tudo uma questão de comunicação. A Igreja quer colocar o sacerdote como pedra angular do seu sistema ministerial, evitando os riscos do clericalismo e abuso de poder. No próprio tempo de Jesus, o celibato pelo Reino de Deus não  era uma escolha  fácil e comum, assemelhava-se à vida santa e sofredora dos profetas. Tudo aquilo que pode promover a intimidade orante com Jesus Cristo nos jovens seminaristas, na adolescência, deve fortalecer a maturidade emotiva e psicológica com o Senhor para que, de uma forma serena, escolham definitivamente. A questão das vocações de consagração assemelha-se à do matrimónio, uma como a outra, dizem respeito à formação e à ética das virtudes, numa sociedade em que as escolhas radicais estão contra a cultura atual e têm de ser feitas por eles.

A questão das vocações de consagração na Igreja hoje, pressupõe uma análise da sociedade atual ao nível demográfico, sociológico e cultural.

Na história da Igreja abundam modelos exemplares de santos, homens e mulheres,

como Paulo de Tarso,  que entusiasmam e, até, confundem, com a linguagem da cruz:

“ Nós somos néscios por Cristo, e vós sábios em Cristo, nós fracos, vós fortes, vós nobres, e nós desprezíveis. Até esta hora, sofremos a fome e a sede, estamos nus, somos esbofeteados, não temos morada certa, e cansamo-nos a trabalhar com nossas próprias mãos, amaldiçoam-nos, e bendizemos, perseguem-nos, e suportamos, somos caluniados, e consolamos, tonamo-nos como imundície deste mundo, a escória de todos até ao presente” (Aos Coríntios, ca. 4, versículos 10-13).