Paixões que libertam

A minha paixão sempre foram as palavras, mesmo antes de sequer perceber o que era sentir desejo pelas coisas.

A minha paixão sempre foram as palavras, mas dei por mim senhor engenheiro, apesar de nem sequer saber bem como isso se deu.

Presumo que tenha tido como origem a preocupação com as saídas profissionais, incutida por pais que não queriam que os filhos passassem pelo que eles tiveram que passar.

Sim, porque no tempo deles havia respeito, mas faltava comida e a solução passava quase sempre pela emigração.

Sim, porque no tempo deles ainda éramos um império mesmo que não pudessem prosseguir os estudos.

Nada disso interessa já porque agora Portugal é livre, quer haja ainda fome ou não.

E se há felizmente talvez menos fome de comida, há ainda tantas outras manifestações de fome no Portugal de hoje: há carência de esperança, há apetite por justiça e míngua de futuro.

Mas nada disso interessa já, disse e repito.

O que importa é que dei por mim senhor engenheiro, mesmo se o senhor meu pai tivesse talvez preferido que eu fosse senhor doutor em direito porque, sabendo as leis, talvez estivéssemos protegidos das iníquas arbitrariedades de que este rochedo abandonado no atlântico é pródigo.

Contudo o fundamental é ser senhor, seja o senhor doutor ou o senhor engenheiro.

Sim porque os senhores - sejam engenheiros ou doutores - não passam fome e nunca ninguém os desconsidera.

Queria vos falar de me ter tornado senhor engenheiro e dei por mim a falar destes temas menores como o da desigualdade da nossa sociedade ou da distribuição da riqueza, que são temas tão prosaicos e de tão pouco interesse.

Voltemos então ao que interessa.

Dei por mim senhor engenheiro. Sim, eu!, neto de arrais e filho de estivador.

Nem de perto tão brilhante como o senhor meu avô nem o senhor meu pai, mas a quem o Portugal livre, se bem que ainda imperfeito, deu oportunidade de estudar.

No começo, numa escola primária onde éramos inconscientemente formatados à caixa onde nos queriam manter.

Aí, no recreio formava-se já uma seita endoutrinada por dois princípios apenas: só lá entrava quem fosse do glorioso e, no que se refere às convicções políticas, declarasse uma preferência pelos tons alaranjados.

Era, afinal, a mesma mentalidade que transformava a ilha num mar laranja de bandeirinhas presas às janelas das casas dos devotos à força, que queriam acreditar que ali estava a sua salvação de qualquer perseguição.

E onde nas homilias das missas os senhores padres, sempre disponíveis para orientar as massas incultas, aconselhavam piedosamente a procurar nas setas que apontavam para os céus as respostas para quaisquer dúvidas eleitorais.

Mas, ainda assim, alcancei a libertação dessas caixas sociais e rompi com todas as barreiras mentais.

E dei por mim, finalmente, senhor engenheiro na ilha dominada pela meia dúzia de sempre, onde os privilegiados pais do antigo regime mantinham ainda os seus descendentes no poder e diziam coisas como "Hoje em dia qualquer um é senhor engenheiro e senhor doutor". Até netos de arrais e filhos de estivadores, era o que eles queriam realmente dizer.

Mas uma vez livre das caixas sociais e das barreiras mentais já nada me condiciona, nem sequer as más-línguas que se soltam devido à sua própria frustração.

E eu, inspirado pela minha paixão pelas palavras, uso agora todo o meu vocabulário para revelar as realidades que se procuram esconder e para ajudar a libertar quem ainda viva aprisionado.