Enclausurados e escondidos

A generalidade dos portugueses experimenta hoje o último sábado de ‘clausura’, ditada pela pandemia. Na Madeira, embora tenhamos usufruído de um conjunto de restrições mais suaves do que no território continental, este tempo de recolhimento obrigatório à luz do dia também poderá estar a dar as últimas. Esperemos que nada contradiga esta convicção.

São tempos estranhos, com ensinamentos surpreendentes que nunca estiveram previstos. Coincidem com o regresso do Presidente da República, um dos nossos ‘passageiros frequentes’ que, na última tentativa de aproximação a esta região autónoma, teve de alterar os planos de viagem. Por ter-se antecipado aos contratempos, Marcelo Rebelo de Sousa não chegou a sofrer na pele os constrangimentos de um voo cancelado, atrasado ou alterado em plena viagem. Seria sempre uma experiência enriquecedora, porque muito próxima das que experimentam muitos dos passageiros que precisam de entrar ou sair da Madeira.

Se aterrar tranquilamente, como se espera, o Presidente da República já terá conhecimento das preocupações dos principais oito operadores turísticos que estiveram nos últimos dois dias na Madeira, a preparar o que resta da operação para este ano no espaço nacional. Terá ouvido falar na falta de respostas da transportadora aérea nacional – TAP Air Portugal – para a qual é mais importante e prioritário proporcionar condições aos portugueses para viajarem para o México do que para a Madeira.

A TAP não tem nenhuma culpa dos constrangimentos que, por vezes, torna inoperacional o Aeroporto da Madeira, mas tem muitas responsabilidades e o dever incontornável de criar condições de mercado para servir os portugueses que querem viajar de e para a Madeira, seja em trabalho, lazer ou outro motivo. Não é apenas porque a linha da Madeira é uma das principais financiadoras da empresa, como o demonstram os resultados que são públicos; é porque uma companhia de bandeira nacional tem responsabilidades perante os seus contribuintes. Não basta sugar-lhes os impostos, parte deles para devaneios e apostas erráticas.

‘Enclausurados’ continuam também alguns dos depositantes do BANIF. O representante da República já recebeu uma carta onde esses lesados expõem, pela enésima vez, a forma criminosa como perderam as suas economias. Amanhã, quando receber a carta, espera-se que Marcelo Rebelo de Sousa possa acenar com algo de concreto que nos faça acreditar no país onde vivemos – e que muito deve aos seus emigrantes.

Em tempo de lamúrias, na véspera da reabertura a uma certa normalidade nas nossas vidas, reserva-se uma chamada de atenção para um pequeno-grande detalhe que nos últimos dias voltou à discussão pública, facto que motivou a sua reprodução nas páginas do JM: os polícias que se escondem entre os arbustos ou atrás de pilares para ‘caçarem’ multas. Trata-se da degradação de uma instituição que teima em não se fazer respeitar, mesmo que recorra a argumentos válidos como é, de facto, a necessidade de autuar prevaricadores em excesso de velocidade. Há limites para velocidade, mas também os há para alguns objetivos materialistas dissimulados noutras coisas.