Das petas às teorias da conspiração

O dia 1 de abril é conhecido como o dia das mentiras, um dia em que muitos guardam memórias de “pregar uma peta” a alguém. Na própria comunicação social, entre a novidade das emissões televisivas que vão passar a ter cheiro e a descoberta de petróleo nas Desertas, as pessoas são desafiadas a identificar a peta do dia. Mas no mundo das tão faladas notícias falsas, o inocente dia das mentiras já não parece ter o mesmo impacto.

Numa realidade mediática e das redes sociais - o meio através do qual milhões de pessoas recebem “notícias” -, as petas já não são apenas no dia 1 abril e, ao contrário da crença popular, a mentira não tem perna curta. Essa ampliação é de tal modo visível que já não falamos em mentiras simples, mas em esquemas elaborados e expressos em teorias da conspiração, um problema cada mais significativo e que nos faz pensar nos motivos que levam uma pessoa a acreditar nelas.

Para que uma pessoa acredite em mitos e conspirações provavelmente já apresenta algumas condições de partida, nomeadamente crenças prévias nessa esfera ou alguma hostilidade em relação a algo. Alguém que já tenha uma atitude negativa face às instituições, mais provavelmente irá “comprar” uma teoria que envolva uma ação perversa das mesmas; alguém que negue a ciência ou valorize mais o pensamento mágico e esotérico, mais provavelmente acreditará que as vacinas fazem parte de uma conspiração para controlar as pessoas ou lhes alterar o ADN.

Para além das atitudes e das crenças prévias de cada um, não podemos também ignorar o mundo de hiperestimulação, de ciclos noticiosos de 24h e sobretudo da internet e das redes sociais, onde, mais do que a possibilidade de contraditório, ocorrem mecanismos autoconfirmatórios - o que é favorecido pelos respetivos algoritmos. Neste aspeto, as redes transformam-se em câmaras de eco do que já estamos a pensar - eu acredito em algo e somente tenho acesso a conteúdos que confirmam essa crença. Isto é especialmente relevante se já existir algum medo ou receio em relação a algum tema, com as pessoas a irem em busca de dados que o apoiem. Por outro lado, as mentiras propagam-se muito mais velozmente nas redes do que, pois são mais sensacionalistas e provocam maior ativação emocional, além de que a capacidade que cada um de nós tem para processar o vórtice de dados que circulam é limitada.

Uma vez que é impossível abordar e verificar cada uma das milhares de teorias que circulam na internet a propósito de tudo, torna-se necessário mobilizar o conhecimento, incluindo da ciência psicológica, para que estas fiquem mais bem preparadas para enfrentar esses perigos.

É essencial promover a literacia digital e o espírito crítico das pessoas, incluindo em relação a quem está a apresentar a informação, já que frequentemente não há uma distinção entre, por exemplo algo que foi visto no youtube ou no facebook, de algo que foi publicado em local credível, de forma fundamentada e com autores identificados. Também aqui, a velha expressão das passagens de nível "pare, escute e olhe” se poderia aplicar. Isto faz sentido? Será esta fonte fiável? Se não estou certo, vou procurar e ver melhor.

Mas já agora, e para benefício desta clarificação, é também importante não classificarmos tudo de teorias da conspiração ou de fake news, ou invocarmos este argumento face a algo com que não concordemos. A indiferenciação entre o que são comentários legítimos ou situações que merecem debate e notícias que efetivamente são falsas só cria uma amálgama que deteriora o clima social e institucional.

Como temos constatado na vida contemporânea, a influência das notícias falsas, teorias da conspiração e das redes comunicacionais é cada vez mais evidente e com influências em muitos casos dramáticas - a UE tem hoje menos um membro e os EUA estão mais polarizados que nunca em parte devido a isso. A solução para os problemas que podem daí surgir não é fácil, mas, entre a responsabilização das plataformas digitais e a literacia e a cidadania digital de cada indivíduo, certamente que muito há a fazer.