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Artigo de Opinião

Professor

28/08/2023 03:45

O docente era muito recrutado pelos partidos concorrentes porque, em geral, a classe tinha formação académica superior, uma cultura acima da média, porque era popular entre o eleitorado e porque, dado a sua profissão, tinha mestria na arte de falar, de discursar. Sendo a Assembleia uma tribuna, com enorme visibilidade pública, os partidos procuravam a credibilidade que os professores lhes podiam conferir.

Por seu lado, o professor, quase sempre funcionário público, e dadas as características da sua profissão, pouco ou nada perdia em termos profissionais. Continuava a progredir na carreira e, terminado o cargo político, tinha direito imediato ao seu lugar na escola, caso fosse efetivo. Foram às centenas os que passaram pela Assembleia Legislativa da Madeira, durante estes quase cinquenta anos.

Hoje é muito diferente. Os partidos têm um outro processo de recrutamento e nem todos os de boa profissão, pelo menos os mais talentosos, parecem estar disponíveis para se refregarem em guerras de alecrim e manjerona, nas sedes partidárias, só para conseguirem um lugar de deputado, como se isso fosse a última bolacha do pacote.

É preciso notar que, agora, a escolha das listas de deputados já não obedece apenas a critérios como a representatividade do candidato, a sua formação e cultura, o seu histórico político-eleitoral, a sua notoriedade pública, enfim, a sua mais-valia eleitoral. Agora, acima de todos os critérios, o que mais conta é saber-se de que lado da barricada partidária esteve o candidato a candidato.

O que mais conta é saber-se se o indivíduo esteve do lado da lista A ou da lista B, aquando das eleições internas. Regionais ou locais. Se angariou ou não militantes para fazer balançar a vitória a favor do atual líder. Se fez o trabalho descarado do porta-à-porta, do boca-à-boca ou do telefonema em telefonema, para que a lista do líder ganhasse. É esse que manda. É esse o escolhido ou é esse que escolhe os candidatos locais da sua preferência. Não importa a profissão, não importa a formação, nem sequer importa se alguma vez trabalhou. Há como que uma "caixinha" dentro do sistema partidário que vai afastando os melhores.

Só assim se justifica que um presidente de câmara, em fim do terceiro mandato, seja afastado da lista do seu partido. Que um tal deputado controle, há anos, a seu bel-prazer, a representação concelhia e o seu inamovível lugar na lista regional. Que a representação concelhia estagne num dito processo de renovação que acumula anos de insucessos eleitorais locais. Que briosas e indizíveis relações prevaleçam sobre os justos critérios de escolha dos candidatos.

Por isso vai rareando o talento político na Assembleia. A aptidão e a competência vão cedendo lugar à fidelidade. Pelo que se vê, já não interessa a formação, já não interessa a cultura, a notoriedade pública ou a mais-valia política. Os tempos são outros.

Para pessoa bem formada e de boa profissão, são tempos de assobiar para o lado, de cantarolar baixinho, mas alegre e convictamente, a música do cantor Nobel da Literatura. "The Times They Are A-Changin". - Bob Dylan.

Emanuel Gomes escreve à segunda-feira, de 4 em 4 semanas.

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