Há amores que se tornam tarefas. Gestos que antes pertenciam à intimidade do outro e que, agora, se tornam responsabilidade de quem ama. Dar banho ao próprio pai, à própria mãe... acompanhar à casa de banho, vestir, despir, limpar. Ajudar a levantar-se, a sentar-se, a existir. Há uma angústia silenciosa nesse gesto, uma invasão necessária, mas dolorosa, de uma privacidade que sempre foi sagrada.
De repente, aquele corpo que outrora nos protegeu é o corpo que protegemos. Aquelas mãos que nos davam banho quando éramos pequenos são agora as que seguramos com cuidado, para que não caiam. Os papéis invertem-se, e com essa inversão vem uma vergonha que não é culpa de ninguém, mas que habita em todos. Vergonha de precisar, vergonha de expor, vergonha de olhar e ser olhado num momento que sempre foi íntimo. Tentamos relativizar, sorrir, dizer “não faz mal”, “é só água”, “estamos juntos nisto”. Mas, no fundo, há uma dor que se instala discretamente, como uma sombra que ninguém nomeia.
Para o pai, para a mãe, há o peso de se sentir um fardo. O corpo já não obedece, a independência escapa por entre os dedos, e cada pedido de ajuda é feito com pudor, quase desculpa. “Desculpa, incomodar.” “Eu já não sirvo para nada.” “Eu não queria dar trabalho.” Mas precisam. Precisam de ajuda para tudo.
Para o filho, para a filha, há um outro tipo de dor. A de ter de ser tudo, para todos. Trabalhador, cuidador, mãe ou pai de crianças pequenas que também exigem presença, amor, energia. A vida ativa continua a correr, o emprego, as responsabilidades, a família construída, os filhos que ainda precisam de colo e atenção e, ao mesmo tempo, há este amor antigo que agora pede cuidados constantes. É um malabarismo sem rede.
Entre um banho dado ao pai e uma reunião de trabalho, entre uma noite mal dormida e um lanche escolar, entre uma ida às urgências e um abraço a um filho que reclama tempo, a exaustão instala-se. Não é apenas física, é emocional, existencial. Porque cuidar de quem cuidou de nós é um ato de amor infinito, mas também é um ato que consome, que esgota, que nos deixa, tantas vezes, à beira do pranto no silêncio da casa adormecida.
E no meio de tudo isto, a culpa aparece. Culpa por sentir cansaço. Culpa por desejar, ainda que por um segundo, uma pausa. Culpa por não conseguir estar em todo o lado, por falhar aqui e ali, por não ser suficiente para ninguém, nem para o pai, nem para os filhos, nem para si próprio.
Cuidar é um gesto heroico e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Não há glória nem medalhas. Há noites longas, corpos cansados, lágrimas escondidas e um amor que insiste em ficar, mesmo quando tudo parece demasiado.
Porque amar, nestas circunstâncias, é permanecer. É dar banho com mãos firmes, mesmo com o coração a tremer. É dizer “está tudo bem” quando por dentro se grita. Este é o peso invisível de cuidar: um peso que se carrega com amor, com dor, com dignidade... e que só quem o vive verdadeiramente consegue compreender.