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Artigo de Opinião

18/01/2026 07:35

Estive em Nay Pyi Taw num momento decisivo da história de Myanmar, em 2015, nas primeiras eleições multipartidárias após décadas de uma ditadura militar brutal. Essas eleições levaram à vitória de Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz, depois de mais de vinte anos de prisão domiciliária pela sua resistência pacífica à junta militar. Havia esperança no ar, mas também uma sensação clara de que a democracia era frágil e provisória, como os eventos posteriormente vieram a confirmar com o golpe de estado militar de 2020.

Foi ali que percebi, de forma quase pedagógica, a arbitrariedade, a paranóia e a estupidez dos regimes totalitários. Nada ilustra melhor isso do que a própria existência de Nay Pyi Taw, a actual capital.

A junta militar era profundamente impopular. Yangon, a antiga capital, era um foco permanente de protestos, frequentemente violentos. Um episódio resume a lógica do regime: após um atentado contra um general cometido por um motard, a solução simples e absurda foi impor restricções severas à circulação de motociclos em Yangon e noutras zonas urbanas. Não importava que milhões de birmaneses dependessem delas para viver. Num regime totalitário, a segurança do poder vale sempre mais do que a vida quotidiana da população. Mas isso não bastou. Yangon continuava demasiado povoada, politizada e imprevisível. Então surgiu outra ideia genial de “fugir da população”. Criar uma capital nova, longe da “populaça ingrata”, mais fácil de controlar e mais segura para os generais.

Em 2002, começou em segredo a construção de Nay Pyi Taw. Em 6 de Novembro de 2005, a capital administrativa foi transferida de Yangon quase sem explicações. Funcionários públicos receberam ordens para se mudarem para um local vago a norte. Quando chegaram, muitos tiveram de dormir no chão dos ministérios, porque não havia habitação construída. O nome oficial da cidade, que significa ironicamente “Morada dos Reis”, só foi anunciado em 2006, no Dia das Forças Armadas.

A cidade é surreal. Viajamos por estradas esburacadas como tantas outras em Myanmar e ao lá chegarmos, de repente, surge uma avenida com vinte faixas. Não há carros. Vêem-se vacas, algumas bicicletas e um silêncio desconcertante. Há centros comerciais luxuosos, cinemas, hotéis, campos de golfe e jardins impecáveis, tudo o que o resto do país, um dos mais pobres do Sudeste Asiático, não tem. Mas tudo está vazio.

Estima-se que a construção tenha custado 3 a 5 mil milhões de dólares, o equivalente a 5–10% do PIB anual da época, um peso colossal para um país pobre. Não foi um investimento para o desenvolvimento, mas um monumento ao medo e à vaidade do poder.

Nay Pyi Taw é uma capital sem alma, construída para proteger governantes do seu próprio povo. E confirma a verdade simples de que não há nada pior do que um regime totalitário. Como dizia Churchill, «a democracia é o pior dos sistemas, excluindo todos os outros que já foram experimentados». Ao menos, não precisa de fugir dos cidadãos.

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