O resultado destas eleições presidenciais não aconteceu por acidente. Aconteceu porque as pessoas votaram. A democracia funcionou. E isso é bonito porque nem sempre foi o caso.
O 25 de Abril sempre me foi apresentado como o dia em que o medo acabou. O dia em que se deixou de sussurrar. Cresci com a ideia de que essa memória coletiva nos protegia, que sabíamos demasiado bem o que significava viver sem liberdade para voltar a brincar com discursos de exclusão ou de ódio. Hoje percebo que essa memória não é automática. Quando deixa de ser explicada e ligada ao presente, transforma-se apenas em mais um feriado.
A extrema-direita de hoje não chega com censura. Chega com votos, tempo de antena e frases curtas que prometem soluções simples para problemas não tão simples. Usa a democracia para ganhar espaço enquanto corrói, pouco a pouco, aquilo que a sustenta: o respeito pelo outro, a diversidade e os laços básicos que mantêm uma sociedade de pé.
Há um dado que me custa particularmente: o Chega venceu na Madeira. Uma região marcada pela emigração, pela entreajuda, pela memória muito concreta do que é sair porque não há oportunidades. Ver este discurso ganhar aqui força não é um detalhe regional, mas sim a prova de que a extrema-direita já não vive nas margens e está integrada no quotidiano.
Como emigrante na Bélgica, o mesmo desconforto senti ao olhar para o voto dos portugueses no estrangeiro. Em vários círculos da diáspora, o Chega teve resultados expressivos. A ironia é incrível: um partido que constrói grande parte do seu discurso contra imigrantes em Portugal é apoiado por pessoas que vivem como imigrantes noutros países. Pessoas que sabem o que é ser “o outro”, que tiveram de adaptar-se todos os dias, que sabem o que é ser julgadas pelo sotaque.
Mas nada disto acontece num vácuo. Estas eleições foram também marcadas por um ambiente pesado de desinformação. Na primeira volta, os conteúdos de desinformação associados às presidenciais somaram mais de 8,3 milhões de visualizações nas redes sociais, sendo que André Ventura concentrou a maioria dos casos identificados, segundo o LabCom – Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior. Não se trata de um acaso. A desinformação é uma ferramenta política: serve para confundir, cansar, desacreditar e criar a sensação de que nada é fiável. Quando isso acontece, o medo torna-se um atalho poderoso para o voto.
Aceitar que este resultado nasceu da democracia não significa aceitá-lo em silêncio. Pelo contrário. Obriga-nos a assumir responsabilidade: nossa, enquanto cidadãos. Nossa, enquanto sociedade. Se desistirmos de explicar, de ouvir e de criar espaços onde seja possível discordar sem atacar, alguém ocupará esse espaço com mentiras ou ódio.
A democracia não se defende sozinha nem por inércia. Defende-se todos os dias, quando escolhemos conversar em vez de gritar, respeitar em vez de chamar nomes, esclarecer em vez de simplificar e lembrar o que acontece quando deixamos o medo decidir por nós.