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Artigo de Opinião

Presidente da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

29/02/2024 08:00

Um cenário frequente nas escolas é o de alunos sentados num canto, em silêncio, entretidos com o telemóvel. Já na sala de aula, é comum encontrarem-se alunos mais atentos a aplicações do que propriamente à matéria - algo muito relevante, já que, como diz a UNESCO, se bastam segundos para pôr um gosto ou um emoji numa publicação, poderá levar 20 minutos para o cérebro de uma criança se focar novamente.

Numa realidade em que, aos 12 anos, quase todas as crianças têm smartphone, o debate sobre o que lhes fazer, quer na sala de aula, quer nos recreios e outros espaços escolares, tem estado cada vez mais na ordem do dia. Foi até alvo de um raro consenso entre os líderes partidários nacionais, no recente debate na rádio. Há mesmo quem diga que teremos de lidar com os telemóveis nas escolas como lidamos no passado com o tabaco e com o excesso de açúcar nos alimentos.

De forma mais generalizada ou contextualizada, tem-se assistido em vários países a medidas de restrição do uso dos telemóveis na escola, justificadas pelos seus efeitos nefastos na aprendizagem, na socialização, na motricidade e na saúde psicológica. O Global Education Monitor 2023, da UNESCO, apresenta evidências de que a utilização excessiva dos dispositivos móveis resulta numa deterioração da aprendizagem e da estabilidade emocional das crianças, o que levou aquela organização a sugerir fortes restrições ou até banição de smartphones nas escolas, de forma a melhorar a aprendizagem e a proteger as crianças do cyberbullying.

Alguns argumentos contrários a restrições envolvem desafios de operacionalidade e potenciais efeitos de ricochete (assim que as crianças voltarem a ter o telemóvel, ainda ficam pior). Mas as experiências de proibição dos telemóveis que já existem não estão a correr mal, com alguns estudos, por exemplo em Espanha e na Noruega, a mostrarem uma redução no cyberbullying e uma melhoria de resultados escolares.

Se devemos avançar para uma banição alargada dos telemóveis nas escolas, quer isso seja na sala de aula ou em todo o recinto escolar, é uma discussão que deve ser feita. Assumindo que não existem balas de prata e que uma proibição não resolverá todos os problemas, é importante analisar os resultados das experiências existentes e o compromisso em avaliar outras que venham a existir, tomando-se decisões com base em evidências e não em crenças ou sensações do momento - como deve ser em qualquer decisão em políticas públicas.

E é também necessário considerar alguns aspetos essenciais. Em primeiro lugar, é preciso muito mais do que apenas banir os telemóveis para que as escolas sejam espaços mais atrativos, inspiradores e promotores da socialização. Em segundo, as empresas tecnológicas têm de ser responsabilizadas e agir, por exemplo, no combate ao cyberbullying, criando ambientes virtuais que não sejam uma selva. Este tema não é apenas dos utilizadores, mas também das plataformas e de como funcionam. E, por fim, não confundirmos proibições de telemóveis com negligenciar o papel das tecnologias na aprendizagem, valorizando-se a utilização adaptativa das ferramentas digitais e a capacidade crítica face às mesmas.

Em suma, não se trata de excluir crianças e jovens das tecnologias e dos dispositivos, mas de clarificar a forma mais adaptativa da sua utilização, no quadro das necessidades do desenvolvimento humano. E, já agora, não esquecendo que, ao definirmos regras para as crianças, não podemos ignorar o comportamento dos adultos.

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