Foi muito amado pelo povo que, ainda hoje, há quem se recorde dele com emoção e modelo de santo sacerdote. Na celebração do centenário, o seu nome não foi recordado como também o do Doutor João Francisco de Almada, o do Bispo D. Manuel Agostinho Barreto e Dom António Manuel Pereira Ribeiro. Todas as atenções foram dirigidas para o provincial da Casa do Telhai que permitiu a vinda dos Irmãos para o Funchal. Ele de facto foi uma das figuras maiores desta gesta histórica, Irmão João de jesus Adradas Gonzalo, era espanhol e foi martirizado no tempo das lutas sanguinolentas que devastaram os cristãos espanhóis.
Eu, ainda não tinha nascido, quando aconteceram estes factos, foram meus familiares que mos contaram, principalmente a avó Pimenta, mulher piedosa e forte que todos os dias se levantava cedo para dirigir-se à pequena capela dos Irmãos para a Santa Missa e Eucaristia. Dentro dos muitos e vários factos que me recordo desta Casa de Saúde narrarei alguns.
Para a manutenção legal deste manicómio constituiu-se uma agremiação, com os seus Estatutos aprovados pela autoridade chamada "Associação dos Irmãos de São João de Deus", sendo diretor o Irmão Manuel Maria Gonçalves, homem de trato amável, precária saúde, mas que conseguiu orientar e dirigir a obra para ajudar os doentes através dos irmãos enfermeiros. O resultado foi uma grande abertura à caridade e um vivo entusiasmo, apareceram esmolas, donativos, formando-se grandes romagens que eu, pequenino, seguia atentamente da minha casa. Grupos numerosos de pessoas de todas as idades, algumas das quais da minha família, entre elas a tia Augusta que distribuía bordados e, depois, o seu fruto era para esta Casa e Irmãos. Esta generosa mulher não tinha outro trabalho que mais amasse, andava de porta em porta, por vezes levando-me consigo, o que me divertia muito com tantos passeios, e dos pequenos regalos que me faziam. As romarias tiveram início na paróquia com ofertas em dinheiro, por vezes com notas cosidas em ramos de árvores, rodeados de gente a canta e dançar. Os principais sítios que participavam nas romagens eram os do Boliqueme, Casas Próximas, madalena, Três Paus. Todas as romagens eram pitorescas, mas a principal de todas, a maior, a mais avultada e ruidosa era a Festa dos Três Reis após o Natal, que terminava na Igreja, com a visita a um grande presépio e, depois, visita aos Irmãos que estavam junto dos doentes, terminando com a oração do terço e Bênção do Santíssimo Sacramento. As outras freguesias começaram, também, a realizar romagens com proporções ainda mais aparatosas, entre elas contavam-se as do Monte, São Roque, Câmara de Lobos e Estreito.
Os Irmãos conseguiram a realização de um grande melhoramento para automóveis, ligando o Trapiche com uma estrada a comunicar para o Boliqueme, quando todas as outras eram do sul para o norte. Desta forma estabeleceu-se uma rede para telefones, canalização de águas e obras para a construção de novos pavilhões. Os doentes que, no principio, foram trazidos ás costas dos Irmãos desde a Igreja de S. António, agora vinham de automóvel, aumentaram de 59 em 1914, para 104 em 1928.
A farmácia ou drogaria, da Casa de Saúde, estava aberta todos os dias para as populações, servidas pelos Irmãos enfermeiros. A farmácia era muito conhecida por arrancar dentes! Este serviço foi exemplar e generoso no tempo da guerra, com visitas e remédios às casas dos doentes, principalmente do Irmão, o Superior Fernando.
Outro serviço espiritual foi a catequese dominical, ministrada na capela pelo Snr Padre Bernardino de São José que, tendo um quadro preto junto das crianças, servia-se para nele escrever o menino Teodoro e a menina Teresa Castro. Foi este douto e amigo sacerdote que contribuiu para a minha vocação sacerdotal. Eu gostava dos Irmãos, mas queria celebrar missa como o Padre Bernardino, por isso, fui para o Seminário do Funchal. Depois, com a falta de sacerdotes religiosos, os capelães da Casa de Saúde e Curas de Santo António, foram: o Pe. Manuel Pita, Pe. Alberto de Sousa, Pe. João Conceição e Pe. Teodoro apenas durante nove meses, seguindo depois para Roma com o Pe. Maurílio.
Outro serviço muito válido, foi a criação de uma Conferência de são Vicente Paulo, pelo grande médico cristão Dr. Agostinho Cardoso. Esta Conferência reunia-se numa sala aberta no muro da Igreja, todos os domingos, com vicentinos, que visitavam muitos pobres, principalmente no tempo da guerra, tempo de fome, tempo de tuberculose e de doenças, tempo de pobreza e atá falta de sal.
Uma das novidades introduzidas pelos Irmãos foi a Procissão do Corpo de Deus pela zona que hoje faz parte da paróquia da Graça. Era uma procissão muito bela, com os caminhos todos limpos e enfeitados, cada casal esmerava-se em ornamentar a sua estrada, esperando para mais tarde fazer o mesmo ao receber a Visita do "Santíssimo em Pompa" aos doentes de toda a paróquia. Era comovente e solene, à frente um sacristão a tocar uma campainha, as pessoas a cantarem e outras ajoelhadas à passagem do cortejo e do sacerdote que levava a Eucaristia, Cristo Ressuscitado. A piedade popular da paróquia de Santo António recebia a influência e o perfume espiritual da santidade e contemplação da mística Madre Virgínia da Paixão.