Em muitas casas madeirenses, de Maturín à Calheta ou de Maracaibo ao Funchal, o início de 2026 trouxe o mesmo ritual silencioso: ligar a televisão, confirmar notícias, trocar mensagens curtas e esperar. Esperar por sinais de estabilidade, por palavras de tranquilidade, por um amanhã que traga maiores certezas. Desde o dia 3 de janeiro que milhares de famílias se mantêm expectantes relativamente ao futuro, com apreensão, mas também com esperança e confiança.
A Região Autónoma da Madeira acompanha com especial atenção o desenrolar dos acontecimentos na Venezuela, dada a profunda ligação histórica, social e afetiva que une a estas duas sociedades. Não falamos apenas de laços simbólicos, mas de pessoas concretas, de vidas construídas ao longo de décadas, de património, de negócios e de relações familiares e de amizade.
Os acontecimentos têm evoluído de forma acelerada e são de análise complexa, ao contrário do que fazem crer dezenas de comentadores cujos conhecimentos da Venezuela se limitam a umas pesquisas rápidas nos motores de busca. A Venezuela entrou num outro estádio da sua rica história, com a vice-presidente Delcy Rodríguez a assumir um governo interino. As condições são difíceis, mas a vida em Caracas e noutras cidades retomou alguma normalidade, à medida que vai havendo menos indefinição quanto ao futuro imediato do país.
Este contexto exige uma reflexão serena e um compromisso claro com algo sagrado para nós: a segurança e o bem-estar de toda a comunidade madeirense residente na Venezuela. As notícias que chegam de Caracas lembram-nos que os desafios são, acima de tudo, humanos e quotidianos, e não apenas estratégicos, militares ou políticos.
Acompanhamos com particular atenção a evolução da situação, mantendo contactos institucionais regulares com os Conselheiros da Diáspora Madeirense, que têm sido incansáveis no acompanhamento da comunidade e no reporte da realidade no terreno. Por outro lado, mantemos a convicção de que a solução passará pela prudência e pelo respeito pelos princípios que enformam a nossa civilização: a dignidade da pessoa humana, a liberdade, a democracia representativa e o primado do Estado de Direito. São estes valores, reforçados pela defesa dos direitos humanos, pela solidariedade entre povos e pela convicção de que os conflitos devem ser resolvidos por via pacífica e multilateral, que moldam a nossa ação pública.
A nossa prioridade é a salvaguarda das comunidades madeirenses no exterior, independentemente das circunstâncias políticas locais. Essa prioridade traduz-se num acompanhamento atento, na disponibilidade para apoiar os cidadãos em articulação com os serviços consulares e diplomáticos e na proximidade que nos é característica e que reconhece a dimensão humana da diáspora madeirense. A nossa preocupação não é ideológica é humana.
O futuro político da Venezuela, a sua governabilidade e a forma de conduzir uma transição representativa e legítima continuam por escrever. Pela minha parte, olho para este momento com realismo, mas também com a esperança na resiliência do povo venezuelano e na sua capacidade de encontrar soluções pacíficas para a saída desta indefinição. Persistem muitas incógnitas, mas acredito que o diálogo, a prudência e o compromisso permitirão proteger vidas, promover a paz e garantir a democracia e a prosperidade.
O futuro da Venezuela pertence, antes de mais, ao povo venezuelano. À comunidade internacional caberá o seu papel, mas a nós, enquanto responsáveis regionais, compete manter uma posição serena, expectante e construtiva, centrada na proteção das pessoas.
A comunidade madeirense sempre se distinguiu pela sua capacidade de adaptação, resiliência e solidariedade. Essas qualidades, forjadas ao longo de séculos, no trabalho e na união familiar, dão-nos confiança para acreditar que, mesmo em tempos difíceis, saberemos manter a coesão, apoiar-nos mutuamente e preservar o que foi construído ao longo de gerações. O Governo Regional da Madeira continuará a cumprir o seu papel com responsabilidade, acompanhando de perto a evolução da situação, promovendo a cooperação institucional e colocando sempre as pessoas no centro da ação política. Não controlamos todos os fatores, mas temos um compromisso firme: agir com responsabilidade, salvaguardar direitos e apoiar os nossos compatriotas, onde quer que estejam.