Dedico-me hoje a um assunto que tem preocupado muita gente: misoginia e inteligência artificial (IA). Em diferentes parlamentos, incluindo o Europeu, têm sido denunciadas as instruções do GROK que permitem que se criem imagens de sexualização e abuso de mulheres, meninas, crianças em geral, incluindo bebés. Há regras para a utilização de armas brancas por serem perigosas, mas a utilização da tecnologia e da IA não é alvo de restrições eficazes e o seu uso é igualmente violento e gerador de um cada vez maior número de crimes violentos.
Claro que não é a IA que desnuda e agride mulheres e crianças. São os utilizadores que o fazem. Maioritariamente homens, que encontraram nas redes sociais forma de continuarem a abusar de mulheres e crianças, para aumentar o seu próprio prazer. Sabemos que em Portugal há grupos do Telegram com mais de 70 mil homens que partilham fotos de cariz sexual das companheiras ou filhas, sem que elas tenham disso conhecimento. O seu objetivo continua a ser o de rebaixar e restringir a participação das mulheres na vida política e social do país em que vivem, sentindo como perigosa a sua crescente afirmação em todas as áreas e identificando-a como um ataque pessoal ao poder masculino.
Temos visto a misoginia a crescer e, consequentemente, a aumentar o ódio e a violência contra as mulheres. Começa a perceber-se que os crimes contra as mulheres não são crimes de ódio, mas crimes políticos, porque são perpetrados com o fim de aprofundar a dominação masculina. Querem reforçar todas as estruturas de poder patriarcal e restringir a liberdade e a ascensão das mulheres. Tanto os discursos da extrema-direita assumida como os daquela direita que se tenta disfarçar, mas não consegue encobrir o seu machismo estrutural, atacam o feminismo, pretendendo efetivamente retirar as mulheres da participação cívica e política, tentando recolocá-las nos limites do lar, das suas tarefas de cuidado e retaguarda, remetendo-as unicamente como fonte de prazer para o homem.
Quando as mulheres denunciam muitos dos atentados aos seus direitos humanos são acusadas de fazer caça às bruxas ou linchamentos de carácter. Veja-se o que tem acontecido com Boaventura Sousa Santos ou com o recente caso de Cotrim Figueiredo. A ocasião em que as denúncias acontecem nunca é apropriada. AGORA NÃO! Nunca é o momento certo, se virmos bem.
A presunção de inocência do alegado agressor é sempre espalhada aos quatro ventos, mas elas são logo apelidadas de mentirosas ou interesseiras, sem se esperar pelos vereditos dos tribunais. Eles nunca veem a sua vida estragada e recebem apoios da sociedade em geral. Elas ficam com as carreiras e a vida destruídas e são poucas as pessoas que valorizam o quebrar do seu silêncio.
O silêncio não promove a resolução das situações. Promove a opressão e a injustiça, encobre e amplia os problemas, prolongando a vulnerabilidade da vítima, o seu sofrimento e empoderando quem agride. Calar-se ou atacar quem se queixa é ser cúmplice.
Nota - António José Seguro vai à 2ª volta das presidenciais com André Ventura. A escolha é fácil: entre um democrata humanista e um candidato autoritário de extrema-direita, escolhe-se o democrata. Curiosamente, o radical extremista perdeu cerca de 140 mil votos em relação às últimas legislativas. Por outro lado, Montenegro/Marques Mendes, Cotrim e Gouveia e Melo não indicam orientação de voto. Têm dúvidas em apoiar a constituição, o estado de direito e a democracia. Espero que se crie uma onda de apoio a Seguro que defenda Portugal e a democracia.