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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

25/11/2022 08:00

Uma vez sonhei que estava a dormir abraçado a um esqueleto humano e enquanto sonhava lembrava-me aterrorizado que, em miúdo, não sabia pronunciar corretamente a palavra esqueleto. Dizia escaleto. E os outros gozavam comigo. Eu ficava envergonhado e estuporado e, por isso, o horror do sonho não residia nos ossos em cima de mim, mas no eco da chacota vindo do passado. Eu via os meus colegas de dentes arreganhados e os professores também, todos juntos a dizer:

- Esqueleto, Duarte. Esqueleto.

Eu, porém, fiquei na minha durante anos e anos.

- Escaleto, escaleto…

Não dava conta do erro.

E toda a gente ria que se fartava, até que, de repente, acordei abraçado às aduelas. Naquela altura eu vivia sozinho num T0 no alto da Calçada de Santa Clara e estava magro para caraças, mesmo magro, com a ossatura toda em evidência, porque me alimentava mal e bebia muito e além disso estava desempregado e desnorteado, andava por aí à toa, pelo que fiquei bastante assustado. Por um instante - aquele instante que vai entre a ilusão e a realidade - julguei que tinha morrido e o medo tomou conta de mim, ocupou todo o espaço do meu corpo e da minha alma, ocupou o lugar onde eu estava, a cidade, a ilha, ocupou o mundo inteiro.

- Esqueleto, meu Deus. Esqueleto.

E, no entanto, eu vivia como queria, ou, pelo menos, vivia do jeito que achava que devia viver naquela altura - em solidão e com uma bela vista sobre os telhados de São Pedro até ao infinito do mar. Tinha uma casa só para mim e tempo de sobra para escrever - algo mágico, sem dúvida, um luxo - mas não tirei qualquer proveito da situação. Andava o dia inteiro nos copos e depois não tinha juízo para escrever fosse o que fosse, só tontices. Não tinha esperança. Não tinha fé. Não tinha remédio. Ou seja, não era feliz. Tudo em mim redundava em deserto - a horrível areia das horas - e se morresse assim, morreria sem nada.

Apesar de a situação ser periclitante, eu dispunha de algum dinheiro e o subsídio de desemprego que então auferia - isto aconteceu há mais de uma década e meia - era superior ao meu atual vencimento - vejam só -, de modo que passava os dias também a traçar planos de evasão. Queria fugir. Queria desaparecer. Sim, queria desaparecer. E fiz algumas tentativas. Fui ao continente. Fui a Espanha. Fui ao Mali. A cada regresso, porém, vinha mais triste, desmedidamente mais triste, e punha-me a lamentar:

- Só nasci uma vez, mas já morri de muitas vidas.

Ah, tanta poesia! Tanta poesia!

Eu dizia assim para me animar, para me salvar:

- Sente o dia, homem. Não o temas.

Logo a seguir, contrapunha:

- E o passado? O que faço eu com o passado?

A resposta era destemida e intrépida:

- Sente-o também, sente-o até o esqueceres.

O futuro, contudo, consistia em desaparecer e foi neste contexto que eu parti para África. Afundei-me no fundo da Zambézia e durante alguns anos o brilho que havia em mim era apenas um vislumbre da minha última morte - o fogo-fátuo do último adeus à vida. Muito romântico, não vos parece? Um gajo assim tão longe de casa, a viver de mãos abertas, às vezes quase como um vagabundo, mas sem razão lógica para tal, pois não me faltava nada a não ser o excesso de tudo, um gajo assim numa espécie de tentativa quixotesca para se reencontrar, lutando contra mil fantasmas de mil formas indistintas, como se fosse um louco, apenas para criar uma nova possibilidade de felicidade para o resto da vida…

Tão romântico, meu Deus! Tão romântico!

E, sobretudo, aquela foi uma viagem feita por mim, à minha maneira, pertence-me inteira na luz e na sombra, no bem e no mal, no certo e no errado de cada passo, é pessoal e intransmissível, única como tudo o que transporto em mim, do sonho ao sangue, da carne ao desejo, da palavra ao escaleto…

- Esqueleto, Duarte. Esqueleto.

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