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Artigo de Opinião

Bispo Emérito do Funchal

2/04/2023 04:35

O evangelista São João refere a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das grandes festas, esta tradição era habitual na família de Nazaré. As principais festas eram a Páscoa, o Pentecostes e os Tabernáculos, embora Mateus, Marcos e Lucas sugerem que só realizou uma visita, com a intenção de ordenar toda a vida e pregação de Jesus para a Páscoa, a maior e mais frequentada de todas elas. É uma intenção teológica e não histórica destes evangelistas. A festa da Páscoa reunia uma multidão de peregrinos, vindos não só da Galileia e Judeia, mas de todo o império romano, onde residiam grandes comunidades de judeus.

Esta tradição pascal continua viva nas Igrejas orientais, enquanto na igreja latina o Natal é a ocasião de maiores celebrações, alegrias, convívios e reunião das famílias. Os italianos têm um ditado que diz: "Natale con i tuoi, Pasqua con qui vuoi" o Natal com os teus familiares, a Páscoa com quem quiseres.

Jerusalém sempre foi o lugar privilegiado no Antigo e Novo Testamento, quando o povo piedoso de Israel, os "anawim", ou seja, os pobres, mas ricos de fé e boas obras, como a família de Nazaré, de Joaquim e Ana e da maior parte do povo de Israel, que a pé ou montados em burricos, durante uma semana ou ainda mais, demoravam para chegar à cidade santa do Rei David, ao subirem, cantavam os Salmos de Ascensão, como fazem os peregrinos ainda hoje: "Que alegria quando me disseram, vamos para a Casa do Senhor..." O mesmo aconteceu, quando Jesus vindo de Betfajé com os discípulos e muito povo, com ramos de palmeira e oliveira nas mãos, cantavam:

"Hosana, Bendito o que vem em nome do Senhor" ou "Bendito o Reino que vem do nosso pai David". A narração bíblica está marcada pela imagem de um Messias real e de fé, as vestes colocadas sobre o jumentinho e na estrada, recordam a entronização dos reis em Israel. Jesus não vem realizar as esperanças políticas que o povo subjugado pelos romanos esperava, Jesus realiza as promessas messiânicas de salvação.

Por ocasião da Páscoa, os chefes romanos subiam de Cesareia marítima para o Palácio de Herodes em Jerusalém e para a Torre Antónia junto do Templo.

Na entrada de Jesus em Jerusalém, a cidade estava repleta de peregrinos, os romanos estavam preocupados, mas a manifestação do povo e discípulos a Jesus não perturbou a autoridade romana, presente em todo o território de Israel, mas principalmente na cidade santa, nas vielas apertadas onde os sicários atacavam os soldados romanos e os matavam. Com Jesus, as autoridades romanas não sentiram a necessidade de reprimir uma manifestação pacífica, jubilosa, mas sem importância de maior. O profeta Zacarias já dissera: "Exulta de alegria filha de Sião; solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém, eis que o teu rei vem a ti," parece que estas vozes não ecoaram dentro dos muros. A soberania real de Jesus será proclamada no título da cruz: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus".

O cristianismo e a Igreja nasceram da Páscoa de Cristo, a nossa fé tem como pedra angular o Senhor que foi crucificado e ressuscitou. Santo Inácio de Antioquia escreve: "Somos fruto da sua Paixão"; Paulo de Tarso escreve na primeira Carta aos Coríntios: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, é vã a vossa fé "(1 Cor. 15,14). Por seu lado, Santo Agostinho, escreveu: "Não é grande coisa acreditar na morte de Cristo. Também os pagãos creem nela, assim como os judeus e os que não têm fé. Que ele morreu todos acreditam, mas a fé dos cristãos é na ressurreição de Cristo. É este o nosso distintivo fundamental: acreditar que Cisto ressuscitou."

O grande bispo Melitão de Sardes, do século II escreveu, na sua homilia em versos: sobre Jesus Cristo: "Ele que é tudo: Lei, enquanto julga, Logos enquanto ensina, graça enquanto salva, Filho enquanto é gerado, ovelha enquanto padece, homem enquanto sepultado, Deus, quando ressuscita". Em todos os tempos, os cristãos imitaram com um longo cortejo saído da aldeia de Betfagé, no Domingo de Ramos, até às portas da cidade santa. Tive a feliz sorte de participar algumas vezes. É o maior cortejo, alegre, florido, variegado, que associa os residentes da cidade e arredores, os muçulmanos ao longo das estradas ou encarrapitados sobre os muros, e os cristãos, principalmente os católicos, vindos de muitos países, presididos pelo Patriarca de Jerusalém, rodeado de franciscanos.

Nas mãos seguram e agitam ramos de oliveira, símbolo da paz, e ramos de palmeiras, cantam Hossanas, gritam, falam, riem, acenam, o cortejo vai crescendo, alargando, até se tornar um mar vivo de gente feliz e vibrante que, ao chegar a Porta dos Leões, termina, entrando o clero na igreja da Natividade da Virgem Maria, e os outros que se derramam, pelas ruas e vielas junto aos muros da antiga Jerusalém que louva o Seu Senhor.

FOTO DR

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